Município assume a liderança de uma nova fase do processo, que deverá voltar a envolver outros territórios alentejanos. A produção tradicional em talha está inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial desde 2023.
A Vidigueira relançou a candidatura da Produção de Vinho de Talha a Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, abrindo uma nova fase de um processo iniciado há vários anos e que o município pretende ter novamente preparado até dezembro de 2027.
A autarquia, liderada por Ricardo Bonito, está a rever o trabalho realizado anteriormente e pretende acompanhar um ciclo completo da produção do vinho de talha, incluindo as vindimas e a tradicional abertura das talhas, para recolher novas imagens, testemunhos e outros elementos destinados ao futuro dossiê.
O relançamento ganhou novo impulso numa reunião realizada a 23 de setembro, na Biblioteca Dr. Palma Caetano, na Vidigueira, que reuniu o executivo municipal, técnicos, produtores e representantes da VITIFRADES e da Associação de Produtores de Vinho de Talha.
No encontro participou também Paulo Lima, especialista em património cultural imaterial e em processos de candidatura à UNESCO, chamado a contribuir para a revisão do processo.
Ricardo Bonito defendeu a necessidade de recuperar o trabalho já desenvolvido, mas introduzindo uma nova abordagem na preparação da candidatura. Segundo o presidente da Câmara da Vidigueira, o processo anterior apresentava aspetos que necessitam de ser revistos, encontrando-se agora a autarquia numa fase de análise dos dossiês existentes.
A previsão apontada pelo município é ter a preparação concluída em dezembro de 2027. Este prazo refere-se à conclusão do novo dossiê e não corresponde, nesta fase, a uma data anunciada para uma decisão da UNESCO.
Candidatura deverá ultrapassar as fronteiras da Vidigueira
Apesar da liderança da Câmara da Vidigueira, a intenção é voltar a conferir ao processo uma dimensão territorial mais ampla.
Entre os concelhos já mencionados para esta nova articulação encontram-se Cuba e Alvito, num processo que poderá estender-se a outros territórios onde permanece viva a produção tradicional em talha.
A dimensão regional não é nova. O trabalho desenvolvido anteriormente para alcançar o reconhecimento internacional chegou a envolver cerca de duas dezenas de municípios e várias entidades numa estratégia conjunta em torno desta prática ancestral de vinificação do Alentejo.
Na reunião de setembro foi igualmente apresentado Diogo Conqueiro, presidente da Junta de Freguesia de Vila de Frades, como Comissário Municipal para o Vinho de Talha, Património e Identidade Territorial, com funções de acompanhamento e articulação no âmbito do processo.
Produção de Vinho de Talha já tem reconhecimento nacional
A nova etapa parte de um reconhecimento entretanto alcançado em Portugal.
A Produção de Vinho de Talha está inscrita desde 2023 no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, depois de uma decisão da então Direção-Geral do Património Cultural, tomada por despacho de 28 de novembro daquele ano e publicada em Diário da República em dezembro.
O registo oficial identifica como comunidade os produtores de Vinho de Talha, localiza esta prática em vários concelhos da região do Alentejo e classifica o seu estado de transmissão como ativo.
Na fundamentação da inscrição, a administração do património destacou a relação desta manifestação cultural com a identidade das comunidades envolvidas, a sua profundidade histórica e a ligação a outras práticas comunitárias.
Este reconhecimento nacional é distinto da inscrição na lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, objetivo que está agora novamente a ser trabalhado a partir da Vidigueira.
O processo coincide ainda com um reforço recente do enquadramento da própria designação «Vinho de Talha». As regras publicadas em Diário da República em agosto de 2026 estabelecem as condições para a utilização desta menção na rotulagem dos vinhos com Denominação de Origem (DO) Alentejo ou Indicação Geográfica (IG) Alentejano.
Entre os requisitos encontra-se a utilização do processo tradicional, com fermentação das massas vínicas em talhas tradicionais do Alentejo e permanência no seu interior desde o início da fermentação até, pelo menos, 11 de novembro do ano da vindima.
Com a revisão agora iniciada, a Vidigueira procura construir um novo dossiê em torno de uma prática que permanece ativa em diferentes pontos do Alentejo, fazendo do próximo ciclo completo do vinho de talha uma das etapas de preparação da candidatura.
Augusta Serrano – Jornalista
