Grupo de trabalho criado pelo Governo defende reforço do controlo da rede elétrica, mais tecnologia e um “gémeo digital” do sistema ibérico para prevenir novas falhas
Passa precisamente um ano sobre o apagão que afetou a Península Ibérica, a 28 de abril, pelas 11h30, e o relatório do grupo de trabalho criado pelo Governo para analisar o incidente aponta uma conclusão central: Portugal precisa de reforçar a monitorização da produção de eletricidade e melhorar a capacidade de resposta do Sistema Elétrico Nacional.
Constituído com o objetivo de antecipar riscos e identificar vulnerabilidades na rede elétrica, o Grupo de Aconselhamento Técnico propõe agora a criação de um “gémeo digital” do sistema elétrico ibérico — uma réplica virtual que permita simular cenários, antecipar falhas e melhorar a gestão operacional.
Segundo o documento, divulgado esta segunda-feira, é fundamental assegurar a estabilidade e a robustez da rede, com especial atenção ao reforço do controlo dinâmico de tensão e à capacidade de reação rápida perante perturbações.
O relatório destaca ainda a necessidade de modernizar a operação da rede, defendendo uma gestão mais preventiva, preditiva e automatizada. Para isso, sublinha que será indispensável investir em mais tecnologia, inovação e ferramentas de monitorização em tempo real.
Entre as recomendações apresentadas, surge também a proposta de retirar o envolvimento formal da Assembleia da República no processo de planeamento das redes elétricas. O grupo considera que os atuais processos de aprovação são demasiado demorados, referindo que muitos planos acabam por ser aprovados apenas três ou quatro anos depois, quando já se encontram parcialmente desatualizados.
No plano governativo, o executivo liderado por Luís Montenegro estará já a acompanhar estas recomendações, com atenção particular aos investimentos em tecnologias de controlo de tensão e à simplificação dos processos de aprovação. Está igualmente previsto um estudo sobre os Custos Totais do Sistema, com o objetivo de avaliar de forma mais abrangente o impacto económico da operação e expansão da rede elétrica.
O relatório assinala ainda que a transição energética e o crescente peso das energias renováveis obrigaram a novos investimentos estruturais, aumentaram a volatilidade dos mercados e trouxeram novos desafios à estabilidade do sistema.
Perante este cenário, o grupo de trabalho defende uma maior coordenação do sistema elétrico nacional, reforço da cooperação ibérica e europeia e uma liderança mais clara e articulada entre os diferentes intervenientes do setor.
A análise surge como resposta a um dos episódios mais marcantes do último ano no setor energético, com o apagão de abril de 2025 a expor fragilidades e a acelerar o debate sobre a resiliência das infraestruturas críticas em Portugal e na Península Ibérica.
Augusta Serrano | Jornalista


