Segunda-feira, Agosto 10, 2026

Última elefante de circo já está no Santuário de Elefantes no Alentejo, entre Alandroal e V.Viçosa

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A chegada de Julie ao primeiro santuário europeu dedicado a elefantes assinala o fim da presença de animais selvagens nos circos portugueses e abre uma nova etapa para o bem-estar destes animais.

VILA VIÇOSA/ALANDROAL — Julie, a última elefante de circo em Portugal e o último animal selvagem que permanecia num circo português, chegou ao Santuário de Elefantes da Pangea, no Alentejo, tornando-se a primeira residente daquele que é o primeiro santuário europeu de grande escala dedicado exclusivamente a elefantes.

A transferência resulta de um acordo voluntário estabelecido entre o circo Víctor Hugo Cardinali e o santuário, marcando o encerramento definitivo do processo de aplicação da legislação portuguesa que proibiu a utilização de animais selvagens em espetáculos circenses. A lei foi aprovada pela Assembleia da República em 2018 e passou a produzir efeitos na totalidade em 2024. No entanto, Julie permaneceu no circo até existir uma estrutura devidamente licenciada e preparada para a acolher em permanência.

Natural da África Austral, Julie chegou a Portugal ainda jovem e integrou o circo Cardinali em 1988. Durante mais de quatro décadas participou em espetáculos, tendo deixado de atuar quando entrou em vigor a proibição legal. No mesmo ano perdeu o último companheiro, permanecendo sozinha enquanto era encontrada uma solução definitiva para o seu futuro.

Instalado numa reserva com 402 hectares, distribuída pelos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, o Santuário de Elefantes da Pangea foi concebido para proporcionar condições de vida adequadas a elefantes provenientes de circos, jardins zoológicos e outras instituições europeias, privilegiando o espaço, a autonomia, o contacto social e cuidados especializados ao longo da vida.

Segundo a entidade responsável, Julie poderá explorar gradualmente o novo habitat, adaptando-se ao seu próprio ritmo, enquanto recebe acompanhamento veterinário especializado. Devido à idade e ao historial vivido em cativeiro, a elefante necessitará de cuidados específicos relacionados com problemas de saúde e mobilidade frequentemente associados a animais da sua faixa etária.

O acompanhamento será assegurado pela equipa técnica do santuário, mantendo-se também Víctor Hugo Cardinalienvolvido na monitorização da adaptação da elefante ao novo ambiente.

A Pangea prevê ainda reforçar, durante este ano, a companhia de Julie com a chegada de Kariba, uma elefante africana com cerca de 40 anos que vive atualmente isolada num jardim zoológico da Bélgica. Paralelamente, decorrem contactos com outras instituições europeias para acolher novos elefantes que possam beneficiar deste espaço.

A diretora-geral da Pangea, Kate Moore, considera que a chegada de Julie representa um momento simbólico para o projeto.

«A Julie é a primeira elefante a chamar casa à Pangea e não poderia haver primeira residente mais adequada do que a última elefante de circo de Portugal. Muitos circos e zoos por toda a Europa estão a chegar a um ponto em que manter elefantes já não é possível nem adequado, e precisam de um lugar para onde recorrer. Trabalhar em parceria com os proprietários para encontrar a solução certa é fundamental para a forma como operamos. O nosso foco é agora proporcionar à Julie a melhor qualidade de vida possível no tempo que lhe resta.»

Também Víctor Hugo Cardinali, diretor do circo, sublinha a importância da decisão.

«A Julie faz parte da nossa família há quase quarenta anos, por isso esta não foi uma decisão fácil, mas é a decisão certa para ela. Poder trabalhar em conjunto com a Pangea em todas as etapas da sua mudança e continuar envolvido na sua vida é muito importante para nós.»

Por sua vez, a Embaixadora do Reino Unido em PortugalLisa Bandari, destacou o significado da iniciativa para o país e para a proteção animal na Europa.

«Congratulo-me com o facto de Portugal ter estabelecido o fim da utilização de animais selvagens nos circos e estou muito satisfeita por ver que o Pangea Elephant Sanctuary se está a tornar o primeiro santuário deste tipo na Europa, aqui em Portugal. Este santuário irá proporcionar um lar à Julie e, no futuro, um refúgio para outros elefantes de toda a Europa.»

Para já, o santuário permanece encerrado ao público, permitindo que Julie e os futuros residentes se adaptem ao novo ambiente com tranquilidade. A evolução da elefante será acompanhada através dos canais digitais da Pangea, onde serão divulgadas atualizações regulares.

Além de representar um novo capítulo na vida de Julie, a sua chegada simboliza o cumprimento integral da legislação portuguesa que pôs termo à utilização de animais selvagens nos circos. No início de 2026, a Pangea colaborou igualmente na transferência de Sona, a última tigresa de circo em Portugal, para um santuário especializado em Espanha. Com a saída de Julie, deixa oficialmente de existir qualquer animal selvagem proveniente de circo em território nacional.

Fonte: Santuário de Elefantes da Pangea.

Augusta Serrano – Jornalista

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