Quarta-feira, Outubro 7, 2026

«Tardes da minha terra, doce encanto»: secretário de Estado evoca Florbela no encerramento das Jornadas em Vila Viçosa

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Alberto Santos recorreu à poesia de Florbela Espanca para falar da ligação entre património e comunidade. No encerramento das Jornadas Europeias do Património, defendeu que preservar Vila Viçosa exige cuidar dos monumentos, mas também da vida de quem a habita.

«Tardes da minha terra, doce encanto.» Foi com este verso de Florbela Espanca que o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, evocou a relação entre a poetisa e a sua terra, durante a sessão de encerramento das Jornadas Europeias do Património, realizada este sábado, 26 de setembro, em Vila Viçosa. No cineteatro que tem o nome da escritora, o governante deixou uma pergunta sobre o futuro: «Que Vila Viçosa queremos entregar às próximas gerações?»

A referência literária serviu de enquadramento a uma intervenção centrada na responsabilidade de conservar o património e de manter a ligação das comunidades aos lugares. O verso, que abre o poema «Languidez», de Livro de Mágoas, foi convocado por Alberto Santos como inspiração para uma tarde dedicada à valorização da vila e à reflexão sobre o seu futuro.

«Hoje estamos aqui neste teatro especial, porque tem um nome especial», afirmou, antes de citar Florbela. Apresentando essa leitura como uma interpretação pessoal, o secretário de Estado sugeriu que as palavras da poetisa poderiam traduzir também o reconhecimento da sua terra e do património que a distingue.

Ao longo da intervenção, Alberto Santos defendeu que as jornadas permitem renovar o olhar sobre monumentos, arquivos, tradições e espaços pelos quais as pessoas passam diariamente, nem sempre reconhecendo a sua importância. Porém, sustentou, abrir portas é apenas uma parte do trabalho: é necessário decidir como podem esses lugares continuar a integrar a vida das comunidades.

Nesse sentido, alertou para o risco de os centros históricos se transformarem em «apenas cenários para os visitantes», afastados dos seus habitantes e da participação destes nas decisões.

«Assim poderemos efetivamente até conservar belas fachadas, mas poderemos perder a parte mais importante que justificou a sua existência», advertiu.

A partir do tema «Reviver, resistir e reinventar», o governante associou a conservação à manutenção regular, à preparação para os riscos e à capacidade de encontrar utilizações adequadas para os edifícios. Sublinhou também que a sustentabilidade de uma intervenção depende de saber quem terá condições para cuidar do património depois das obras.

«Nenhum destes verbos se cumpre por decreto ou por meras declarações de boas intenções», afirmou, defendendo trabalho continuado, recursos e escolhas que nem sempre são fáceis.

Em Vila Viçosa, essa reflexão ganha, segundo Alberto Santos, uma dimensão que ultrapassa cada monumento. O Paço Ducal, o Terreiro do Paço, os edifícios religiosos e civis, o mármore e a Tapada integram uma relação histórica e territorial que exige decisões articuladas, com a participação dos calipolenses.

«Em Vila Viçosa, há coisas boas a acontecer», declarou, explicando que a escolha da vila para o encerramento das jornadas foi concertada com o Património Cultural, I.P.

A candidatura «Vila Viçosa — Sede Ducal» a Património Mundial esteve igualmente presente no discurso. Alberto Santos reconheceu o trabalho desenvolvido pelo município, pela Fundação da Casa de Bragança, por investigadores e técnicos, manifestando confiança no percurso, mas ressalvando que a decisão de inscrição permanece por tomar.

«Estamos todos unidos, fortes e com muita esperança», afirmou.

O secretário de Estado defendeu, contudo, que o futuro de Vila Viçosa não se esgota numa eventual classificação. Depende também das prioridades de investimento, dos usos atribuídos aos edifícios, do cuidado com as ruas e a paisagem e da capacidade das instituições para trabalharem em conjunto.

Na sua intervenção, valorizou a disponibilidade expressa pelo presidente da Câmara, Inácio Esperança, para dar prioridade ao património na distribuição dos recursos municipais, considerando essa posição uma escolha corajosa em favor do legado a transmitir às próximas gerações.

No encerramento de uma iniciativa dedicada a aproximar as pessoas do património, Alberto Santos deixou assim um desafio de continuidade: transformar o conhecimento dos lugares em decisões concretas sobre a sua proteção, mantendo os habitantes no centro desse trabalho.

Augusta Serrano- Jornalista

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