Segunda-feira, Julho 20, 2026

Rogério Copeto recorda tragédia que marcou a GNR em “O Dia em Que a Estrada Roubou Dois Guardas à Guarda”.

Partilhar

Faz hoje, dia 23 de junho, doze anos que uma estrada do distrito de Évora tirou a vida à Guarda Principal Maria João Moura e ao Guarda Principal António Godinho, quando ambos cumpriam a nobre missão da Guarda Nacional Republicana (GNR).

Uma dúzia de anos pode parecer muito tempo para quem observa os acontecimentos à distância, porém, para aqueles que tiveram o privilégio de conhecer a Maria João e o Godinho, para os seus familiares, amigos, camaradas e para as populações que serviram, o tempo não apagou a saudade nem diminuiu a dimensão da perda.

Há datas que ficam para sempre gravadas na memória e o dia 23 de junho de 2014 é uma dessas datas.

Naquela tarde de verão, depois de terem concluído mais uma missão no âmbito da “Operação Açor”, assegurando o transporte dos exames nacionais de Matemática do 9.º ano realizados nas escolas sob a sua responsabilidade, regressavam ao quartel do Destacamento Territorial de Reguengos de Monsaraz, fazendo aquilo que sempre fizeram: cumprir o dever com discrição, profissionalismo e dedicação.

Pelas 16h18, na Estrada Nacional 256, junto à Vendinha, (troço de estrada que foi, entretanto, intervencionado e assim eliminadas as perigosas curvas que registaram vários acidentes), o destino escreveu uma das páginas mais dolorosas da história recente do Comando Territorial de Évora, cujo o acidente vitimou os dois militares interrompendo duas vidas, mas não conseguiu apagar o exemplo que deixaram.

A Guarda Principal Maria João Moura ingressou na Guarda em 1999 e o Guarda Principal António Godinho seguiu-lhe os passos no ano seguinte, nascidos no distrito de Évora, tendo sido nas terras alentejanas que iniciaram o seu percurso ao serviço da GNR, dando cumprimento ao lema que todos os guardas conhecem e procuram honrar: “Pela Lei e Pela Grei”.

Desde cedo revelaram qualidades humanas e profissionais que os distinguiram, integrando na altura o denominado Núcleo Escola Segura do Destacamento Territorial de Reguengos de Monsaraz, tendo rapidamente conquistado o respeito de todos os camaradas e a amizade das comunidades escolares, onde a Maria João e o Godinho não eram apenas militares da Guarda, eram rostos familiares, presenças amigas, exemplos de proximidade e confiança.

Mas a sua ação não se limitava aos mais novos.

Paralelamente ao Programa Escola Segura, desenvolveram trabalho junto da população idosa, no âmbito do Programa Idosos em Segurança, com a sensibilidade que os caracterizava, perceberam que existia uma ponte que podia ser construída entre duas gerações aparentemente distantes, tendo dessa visão nascido o projeto “Gerações de Mãos Dadas”, iniciativa que aproximou crianças e idosos e que continua a ser recordada como um exemplo de cidadania, solidariedade e humanismo.

Num tempo em que tantas vezes se fala da missão da GNR apenas através de números, estatísticas ou operações policiais, a vida destes dois militares recorda-nos que a verdadeira essência da GNR está nas pessoas, na criança que encontra segurança num sorriso, no idoso que deixa de se sentir sozinho porque alguém bate à sua porta, no conselho dado no momento certo e na disponibilidade permanente para servir.

Foi essa Guarda de proximidade que a Maria João e o Godinho personificaram ao longo das suas carreiras.

Os louvores e distinções que receberam (onde se inclui uma rua com os seus nomes na cidade de Reguengos de Monsaraz) representam o reconhecimento formal das instituições, contudo, existem homenagens que não cabem em diplomas nem em registos individuais, e esses são os incontáveis agradecimentos das crianças que ajudaram a crescer, as recordações dos idosos que lhes confiaram preocupações e medos,  e as memórias dos professores, autarcas, técnicos, funcionários e cidadãos que com eles privaram.

Essas homenagens encontram-se guardadas no único lugar onde o tempo não consegue chegar: a memória humana.

Ao longo destes doze anos, muitas foram as iniciativas destinadas a perpetuar a sua recordação, porque a comunidade não esqueceu, a GNR não esqueceu e o Alentejo também não esqueceu.

E não esquece porque a Maria João Moura e o António Godinho representam algo maior do que um episódio trágico da história da GNR, o compromisso, a entrega, a abnegação e a dimensão mais nobre do serviço público.

Quando falamos de militares que perderam a vida em serviço, não falamos apenas de uma fatalidade, falamos de homens e mulheres que aceitaram colocar o interesse coletivo acima do interesse individual, de profissionais que sabiam que a missão comporta riscos, mas que, ainda assim, continuavam a sair todos os dias para servir os outros.

Doze anos depois, permanece a dor da ausência e a saudade, permanecendo também o orgulho de terem pertencido à GNR, de terem servido as populações do distrito de Évora com dedicação exemplar e de terem deixado um legado que continua vivo nas comunidades que ajudaram a proteger.

A Maria João e o Godinho partiram demasiado cedo, contudo, existem pessoas que a morte não consegue vencer, são aquelas que deixam marcas profundas nos lugares por onde passam e nas vidas que tocam.

Por isso, doze anos depois, continuamos a recordá-los, não apenas pelo modo como morreram, mas, sobretudo, pela forma extraordinária como viveram.

Que a sua memória permaneça viva entre nós, hoje e amanhã e enquanto existir alguém capaz de reconhecer o valor daqueles que fizeram do serviço aos outros a razão maior das suas vidas.

Nota:

O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.

Rogério Copeto

Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna

Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas

A não perder

Relacionadas