Segunda-feira, Julho 20, 2026

Ricardo Ribeiro escolheu o Alentejo para viver e deixa um apelo ao mundo: “A paz exige políticos audazes”

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Há cinco anos que o fadista Ricardo Ribeiro trocou Lisboa pelo Alentejo. Foi em Cabrela, no concelho de Montemor-o-Novo, que encontrou um lugar onde diz viver em harmonia com a natureza, o silêncio e uma cultura que considera muito mais profunda do que aquela que habitualmente se associa aos equipamentos culturais.

Em entrevista exclusiva ao Alentrium.pt, o intérprete falou sobre a escolha de viver no interior, a influência do Alentejo na sua forma de estar e de cantar, o conceito de ibericidade que atravessa a sua música e deixou ainda uma reflexão sobre o momento político e social que o mundo atravessa.

“O Alentejo tem qualquer coisa de extraordinária. É uma terra que obedece às leis das proporções. Parece que aqui o vento passa ajoelhado para não hostilizar as oliveiras e as azinheiras.”

Para Ricardo Ribeiro, a paisagem alentejana oferece uma experiência difícil de encontrar noutros lugares.

“Quando de noite olhamos para um beirado de uma casa, se esticarmos a mão parece que apanhamos o firmamento.”

Cinco anos depois de se instalar na região, garante não sentir qualquer afastamento da vida cultural, contrariando a ideia frequentemente associada ao interior do país.

Segundo o fadista, Montemor-o-Novo tem desenvolvido uma programação cultural consistente ao longo dos anos, independentemente das mudanças políticas.

“Todos os presidentes e vereadores têm feito um grande trabalho. Há uma vida cultural muito intensa.”

Ainda assim, considera que reduzir a cultura apenas aos teatros, auditórios ou museus é uma visão limitada.

“O Alentejo tem cultura por toda a parte. Está na conversa com as pessoas, na plantação, na colheita, na forma de viver. Tudo isso é cultura. O Alentejo está cheio de cultura, é riquíssimo.”

A voz que aproxima Portugal e Espanha

Reconhecido pela capacidade de interpretar diferentes géneros musicais, Ricardo Ribeiro considera que a sua forma de cantar resulta também da forte ligação à identidade ibérica.

“Defendo muito uma determinada ibericidade. Não o iberismo, são coisas distintas.”

Na sua perspetiva, Portugal e Espanha partilham uma herança cultural muito mais profunda do que habitualmente se reconhece.

“Estamos todos ligados à Península. Fernando Pessoa dizia que não somos nem latinos nem nórdicos, somos ibéricos. Temos mais coisas que nos juntam do que aquelas que nos separam.”

Assume que a curiosidade permanente pela música, pela poesia e pela filosofia alimenta essa identidade artística.

“As canções têm sempre mensagens”

Questionado sobre a forma como constrói o seu repertório, Ricardo Ribeiro afirma que procura sempre dar conteúdo às letras que interpreta.

“Há mensagens subliminares dentro das próprias canções e depois aquelas que são evidentes. Gosto que as coisas tenham conteúdo. Não gosto muito das coisas pela rama.”

Perante o atual contexto internacional, marcado por conflitos e instabilidade, deixa também uma reflexão sobre aquilo que gostaria de cantar.

“Talvez não fosse má ideia rimar paz com audaz.”

E acrescenta:

“O audaz está nos políticos que deviam ser audazes em escolher a paz. E a paz está no coração dos homens, basta que se busque.”

Um percurso de excelência

Natural de Lisboa, Ricardo Ribeiro começou a cantar publicamente aos 12 anos na Académica da Ajuda, acompanhado por Carlos Gonçalves e José Inácio. Teve como grandes referências Fernando Maurício, Manuel Fernandes e Alfredo Marceneiro, nomes que marcaram decisivamente o seu percurso artístico.

Foi vencedor da Grande Noite do Fado de Lisboa em 1997 e 1998, depois de alcançar o segundo lugar na edição de 1996. Ao longo da carreira passou por algumas das mais emblemáticas casas de fado de Lisboa e representou Portugal em diversos festivais internacionais.

A sua discografia e percurso artístico valeram-lhe vários reconhecimentos nacionais e internacionais, entre os quais o Prémio Revelação Masculina da Fundação Amália Rodrigues, o Prémio Melhor Intérprete, distinções da revista britânica Songlines, o Prémio Carlos Paredes e, em 2015, a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, atribuída pelo então Presidente da República.

Ao longo das últimas décadas colaborou com músicos portugueses e estrangeiros, participou em projetos multidisciplinares e levou o fado aos principais palcos internacionais, afirmando-se como uma das vozes mais reconhecidas da música portuguesa contemporânea.

No Alentejo, onde hoje escolheu viver, continua a encontrar inspiração numa terra que descreve como um lugar onde a natureza, a cultura e as pessoas permanecem profundamente ligadas.

Augusta Serrano – Jornalista

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