A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) recordou que, até janeiro de 1976, foram ocupados cerca de 1 183 000 hectares de terra no âmbito da reforma agrária, sobretudo nas zonas do Alentejo, no que considera ter sido uma resposta a décadas de desigualdade e concentração fundiária.
Em declarações à agência Lusa, Alfredo Campos, coordenador do Conselho Nacional da CNA, afirmou que, antes da reforma, Portugal era “um país atrasado, oprimido e reprimido”, sem liberdades democráticas e com grandes carências em infraestruturas básicas, especialmente nas regiões rurais.
As terras expropriadas foram integradas nas Zonas de Intervenção da Reforma Agrária (ZIRA), abrangendo os distritos de Beja, Évora, Portalegre e parte dos distritos de Setúbal, Faro, Lisboa, Santarém e Castelo Branco. As propriedades coletivas formadas — as Unidades Coletivas de Produção (UCP) — resultaram da junção de várias herdades, com a propriedade das terras a ser atribuída ao Estado.
Segundo a CNA, estas unidades recorriam a crédito agrícola de emergência para garantir salários aos trabalhadores. O movimento de ocupações foi impulsionado por sindicatos, partidos políticos e pelo envolvimento ativo dos trabalhadores agrícolas.
Antes da reforma, a produção agrícola era maioritariamente de subsistência e familiar, com uso de técnicas tradicionais e tração animal. No Alentejo, a área de terra cultivada passou de 928 000 hectares na segunda metade da década de 1950 para 596 000 entre 1970 e 1973, uma redução que a CNA liga ao modelo fundiário latifundiário e à falta de apoio à produção.
Em 1977, o então ministro da Agricultura, António Barreto, aprovou legislação para reverter parte do processo, permitindo a devolução de terras a antigos proprietários e o pagamento de indemnizações. A CNA criticou essa lei, considerando-a contrária aos interesses dos trabalhadores agrícolas e alegando que a destruição das UCP foi acompanhada de repressão policial e dificuldades financeiras.
A CNA defende que o desmantelamento da reforma agrária teve consequências negativas para a economia local, provocando desemprego, abandono rural e dependência alimentar. A organização critica a atual predominância dos hipermercados, que, segundo a CNA, favorecem produtos importados em detrimento da produção local.
A confederação propõe um reforço à agricultura familiar, apoio a pequenos e médios produtores, valorização das raças autóctones e circuitos curtos de comercialização.


