Antigo primeiro-ministro compara políticos sem convicções a “prostitutos sem caráter” e defende medidas para travar pressão migratória
O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho criticou os políticos que procuram agradar a todos os eleitores, acusando-os de perderem autenticidade e integridade em nome do aplauso imediato. Numa intervenção de cerca de 50 minutos, durante a apresentação do livro A Constituição Fluida, do constitucionalista Carlos Blanco de Morais, o ex-líder do PSD comparou esses responsáveis políticos a “prostitutos sem caráter”.
A sessão decorreu no auditório da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e contou com a presença do presidente do Chega, André Ventura, que esteve sentado ao lado de Passos Coelho durante o evento.
Na intervenção, o antigo chefe do Governo defendeu que a política deve manter uma dimensão de liderança e criticou aquilo que considera ser “uma maldição” instalada no espaço europeu e português: o receio dos líderes em desagradar aos cidadãos.
Segundo Passos Coelho, quando os partidos tradicionais tentam responder ao crescimento do populismo adotando discursos semelhantes, acabam por perder identidade política e credibilidade. “O que é autêntico e genuíno sempre se manifesta e de uma forma muito mais eficaz do que o que é postiço”, afirmou.
O ex-primeiro-ministro alertou ainda que os aplausos momentâneos podem rapidamente transformar-se em condenação política quando os resultados não correspondem às expectativas criadas.
Durante a apresentação, Passos Coelho recuperou uma ideia já defendida enquanto liderava o Governo, sustentando que a política não deve ser guiada apenas pela conquista eleitoral.
“Há pessoas que não se importam de perder a defender aquilo em que acreditam”, afirmou, acrescentando que o mundo não avança através de quem “só quer ganhar com as ideias dos outros”.
O antigo líder social-democrata comentou também as recentes alterações às políticas migratórias em Portugal, defendendo medidas para travar aquilo que classificou como uma imigração “considerada excessiva pela generalidade das pessoas”.
Segundo Passos Coelho, o ritmo de crescimento migratório poderia colocar em causa elementos identitários ligados ao país. Ainda assim, procurou afastar leituras raciais das suas declarações, sublinhando que Portugal é historicamente marcado pela miscigenação.
“Toda a humanidade é muito parecida, mas isso é diferente de a gente dizer ‘sim senhor, portas abertas tudo bem’”, afirmou.
Na mesma intervenção, Passos Coelho criticou os chamados movimentos de contracultura “woke”, defendendo que o fenómeno já chegou às universidades portuguesas.
O antigo governante lamentou o que descreveu como um ambiente de autocensura motivado pelo receio das consequências de determinadas opiniões públicas. “Há muitas pessoas que fazem uma autocensura porque têm medo das consequências”, afirmou.
Apesar de o tema da revisão constitucional estar atualmente em debate político, Passos Coelho referiu que o livro apresentado não aborda diretamente essa matéria. Ainda assim, considerou existir um risco de “liquefação de valores e identidades” poder vir a traduzir-se em novos princípios constitucionais “demasiado fluidos”.
O antigo primeiro-ministro terminou a intervenção apelando a uma resposta política ativa perante aquilo que considera serem riscos para o espaço democrático e cultural europeu.
Augusta Serrano | Jornalista


