Há momentos em que um país se revela na forma como lida com a tragédia, não na comoção passageira, nem no minuto de silêncio institucional, mas naquilo que decide fazer no dia seguinte, sendo o recente agravamento da sinistralidade rodoviária em Portugal um desses momentos, porque é um espelho desconfortável onde se cruzam imprudência, indiferença e, sobretudo, uma perigosa normalização da morte na estrada.
O anúncio de que o Governo será “implacável” surge com a solenidade habitual, mas a palavra, por si só, é oca, porque Portugal não precisa de um Governo implacável no discurso, precisa de um Estado consequente na ação, sendo a verdade esta: há demasiado tempo que convivemos com números que, noutro contexto, seriam considerados uma emergência nacional.
A estrada, que deveria ser espaço de mobilidade e progresso, tornou-se, demasiadas vezes, um território de risco banalizado, e o mais inquietante é que já não falamos apenas de falhas estruturais, de estradas mal desenhadas ou veículos inseguros, falamos, acima de tudo, de comportamento, de escolhas, de uma cultura onde o excesso de velocidade é visto como destreza, onde o telemóvel ao volante é distração tolerada e onde o álcool continua a ser um companheiro socialmente aceite antes de pegar no carro.
Dizer isto não é moralismo, é responsabilidade.
Se quisermos ser honestos, o problema da sinistralidade em Portugal não se resolve apenas com mais multas ou mais radares, sendo essas medidas necessárias e urgentes, mas são apenas o primeiro nível de resposta, funcionam como travão de emergência, não como solução estrutural.
No curto prazo, sim, é imperativo aumentar a presença da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR) nas estradas, porque a fiscalização visível tem um efeito dissuasor imediato, e o condutor abranda não porque interiorizou o risco, mas porque teme a consequência. É um começo, mas governar pelo medo tem limites.
A médio prazo, o desafio é mais complexo, mudar mentalidades, e isso faz-se onde quase tudo começa, na educação, e Portugal continua a tratar a condução como uma competência técnica, quando ela é, antes de mais, uma responsabilidade social, onde se ensina a passar no exame, não a conduzir com consciência e onde se ensina a estacionar em paralelo, mas não a antecipar o erro do outro e muito menos a facilitar o erro do outro.
É aqui que o sistema falha, e é aqui que tem de ser reformado.
Introduzir educação rodoviária consistente nas escolas não é um detalhe curricular, é uma aposta civilizacional, pelo que formar futuros condutores antes mesmo de terem carta pode parecer excessivo, mas é precisamente essa antecipação que distingue sociedades reativas de sociedades preventivas.
Depois, há os reincidentes, aqueles que acumulam infrações como quem coleciona avisos ignorados e para esses, o sistema tem de deixar de ser permissivo, porque não basta retirar pontos na carta, é necessário reeducar comportamentos, pelo que tudo deve estar em cima da mesa, nomeadamente cursos obrigatórios, acompanhamento, até restrições mais severas, porque cada reincidência é um risco real para terceiros.
Mas é no longo prazo que se decide tudo, e aqui, Portugal precisa de ambição.
Olhar para modelos como o da “Vision Zero”, adotado em vários países do norte da Europa, é mais do que inspiração é um caminho, porque a ideia de que nenhuma morte na estrada é aceitável não é utópica, é um princípio orientador e obriga o Estado a redesenhar cidades, a repensar velocidades, a integrar tecnologia e a assumir que o erro humano é inevitável, e, por isso, deve ser mitigado pelo sistema.
Cidades com zonas de 30 km/h, ruas pensadas para reduzir velocidade, separação clara entre peões, ciclistas e automóveis, tudo isto não limita a liberdade, pelo contrário, protege-a.
E depois há a tecnologia, hoje os carros já são mais seguros do que nunca, mas continuam a depender de decisões humanas falíveis, sistemas de travagem automática, limitadores inteligentes de velocidade, alertas de distração não são luxos, são ferramentas de sobrevivência, pelo que incentivar a sua adoção ou mesmo torná-la obrigatória no futuro é uma discussão que Portugal não pode adiar.
No fundo, tudo converge numa ideia simples, mas exigente, a sinistralidade rodoviária não é um acidente coletivo é o resultado acumulado de milhares de decisões individuais, enquadradas por um sistema que pode e deve ser melhorado.
Ser “implacável” implica, portanto, coerência, não bastando anunciar medidas após tragédias mediáticas, sendo necessário continuidade, avaliação e coragem política, porque muitas das decisões necessárias, reduzir velocidades, aumentar penalizações, limitar comportamentos não são populares, mas são indispensáveis.
Portugal está numa encruzilhada, pode continuar a reagir aos números, lamentando-os ciclicamente, ou pode assumir, de uma vez por todas, que cada morte na estrada é evitável, porque entre o volante e a consciência, há uma escolha e essa escolha, coletiva, define quem somos enquanto país.
Nota:
O texto constitui a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição da instituição onde presta serviço.
Rogério Copeto
Coronel da GNR, Mestre em Direito e Segurança e Auditor de Segurança Interna
Dirigente da Associação Nacional de Oficiais da Guarda


