Na primeira conferência de imprensa desde o início das polémicas, o ministro da Administração Interna rejeitou suspeitas relacionadas com obras numa propriedade em Odemira, a deslocação de um atrelado apreendido num processo de tráfico de droga, contratos celebrados pela Polícia Judiciária e as declarações de património.
O ministro da Administração Interna, Luís Neves, assegurou esta quarta-feira que não praticou qualquer ato ilegal ou irregular nas situações que têm marcado as últimas semanas da atualidade política, afirmando que mantém todas as condições para continuar no cargo. Em conferência de imprensa, respondeu às questões relacionadas com as obras realizadas numa propriedade situada em Odemira, a deslocação de um atrelado apreendido num processo de tráfico de droga quando dirigia a Polícia Judiciária (PJ), os contratos adjudicados a um empresário que conhecia e as declarações entregues à Entidade para a Transparência.
Ministro rejeita ligação a qualquer ilícito
Na abertura da conferência de imprensa, Luís Neves afirmou que nunca evitou prestar esclarecimentos e recusou qualquer associação às suspeitas divulgadas nas últimas semanas.
O governante sustentou que as insinuações sobre alegadas ligações ao tráfico de droga atingem a sua honra e o percurso de mais de três décadas ao serviço da investigação criminal, garantindo que colaborará integralmente com as autoridades nas investigações em curso.
Relativamente ao atrelado apreendido num processo de tráfico de droga, explicou que autorizou a sua deslocação para outro local por considerar tratar-se da solução que melhor defendia o interesse público, classificando essa decisão como um “ato de boa gestão”. Segundo afirmou, a alternativa implicaria elevados custos para o Estado, quer na destruição do material, quer no seu armazenamento temporário.
Obras em Odemira serão regularizadas, se necessário
Sobre a propriedade localizada no concelho de Odemira, Luís Neves explicou que se trata de um património pertencente à família da sua mulher há várias gerações e que tem vindo a adquirir parcelas ao longo dos últimos anos.
Segundo referiu, as intervenções iniciadas em 2024 limitaram-se essencialmente à recuperação de edifícios existentes, sem aumento da área construída nem alterações estruturais relevantes. Admitiu, contudo, que desconhecia a eventual existência de condicionantes urbanísticas na propriedade.
O ministro revelou já ter solicitado uma reunião urgente à Câmara Municipal de Odemira para analisar a situação e garantiu que procederá à regularização de todas as intervenções que venham a revelar-se necessárias.
Durante os esclarecimentos, negou igualmente qualquer favorecimento relacionado com materiais provenientes da Infraestruturas de Portugal, assegurando que a madeira utilizada foi adquirida e paga à empresa pública e rejeitando qualquer desvio de património.
Contratos da PJ seguiram procedimentos legais
Outra das matérias abordadas incidiu sobre a relação com o empresário João Carvalho, cuja empresa realizou empreitadas para a Polícia Judiciária e executou trabalhos na propriedade do atual ministro.
Luís Neves afirmou nunca ter favorecido aquele empresário nem obtido qualquer vantagem económica, sustentando que todos os contratos celebrados pela PJ respeitaram os procedimentos previstos na legislação da contratação pública.
Segundo explicou, enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária não participava na elaboração de projetos, escolha de concorrentes, avaliação de propostas ou adjudicações, competências que cabiam aos serviços técnicos da instituição.
Acrescentou ainda que os contratos celebrados com aquela empresa representaram apenas uma pequena percentagem do valor global das empreitadas adjudicadas pela Polícia Judiciária entre 2019 e 2025.
Declarações de património
Questionado sobre as declarações apresentadas à Entidade para a Transparência, Luís Neves afirmou que cumpriu todas as obrigações legais após ter sido informado de que deveria proceder à entrega da documentação.
Reconheceu que inicialmente não incluiu a empresa pertencente à mulher, justificando que a omissão resultou de um entendimento jurídico posteriormente corrigido.
Segundo explicou, apresentou entretanto uma declaração de substituição, validada pela Entidade para a Transparência, assegurando que nunca pretendeu ocultar qualquer património ou atividade empresarial.
Mantém confiança para exercer funções
No final da conferência de imprensa, Luís Neves reiterou que todas as decisões tomadas enquanto diretor nacional da Polícia Judiciária obedeceram à legalidade e defendeu que continua plenamente legitimado para exercer as funções de ministro da Administração Interna.
As situações referidas continuam, contudo, sob escrutínio público e algumas delas encontram-se igualmente a ser analisadas pelas entidades competentes, conforme o próprio governante reconheceu durante os esclarecimentos prestados aos jornalistas.
Augusta Serrano – Jornalista


