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O renascimento dos vinhos de talha: a tradição milenar do Alentejo conquista o mundo

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Produtores da região reinventam uma das mais antigas formas de fazer vinho, preservando a herança romana enquanto apostam na qualidade e na exportação para conquistar consumidores internacionais.

A tradição dos vinhos de talha do Alentejo, cuja origem remonta ao período romano, vive um novo momento de afirmação. Mantendo métodos ancestrais de vinificação em ânforas de barro, várias adegas da região estão a reinterpretar este património para responder às exigências do mercado atual, sem abdicar da autenticidade que distingue estes vinhos. 

No centro desta tradição encontra-se Vila de Frades, no concelho de Vidigueira, considerada um dos principais berços dos vinhos de talha. Nas proximidades situam-se as ruínas da villa romana de São Cucufate, onde foram encontrados vestígios da produção de vinho e azeite, testemunhando uma ligação à viticultura com cerca de dois mil anos de história. 

Um dos exemplos desta renovação é a Cella Vinaria Antiqua, museu vivo explorado pela Honrado Vineyards. O espaço nasceu da recuperação de uma antiga adega do século XVIII, onde atualmente funcionam 25 talhas destinadas à produção de vinho segundo os métodos tradicionais: fermentação espontânea, sem controlo de temperatura, permanecendo o vinho nas ânforas até, pelo menos, ao Dia de São Martinho, a 11 de novembro. 

Tradição com novas interpretações

Apesar do respeito pelos processos históricos, muitos produtores procuram adaptar os vinhos de talha aos gostos contemporâneos.

Na Altas Quintas, em Portalegre, o enólogo Diogo Vieira pretende ampliar a produção em talha, assumindo uma abordagem que combina tradição e frescura. O objetivo passa por criar vinhos mais acessíveis a um público alargado, preservando a identidade deste estilo. 

Também a Esporão mantém a fermentação sem recurso a leveduras comerciais nem controlo de temperatura, embora adapte alguns parâmetros técnicos quando as condições climáticas o exigem, demonstrando que a tradição pode coexistir com uma gestão mais precisa da produção. 

Produção exigente e cada vez mais dispendiosa

Produzir vinho de talha continua a ser um processo artesanal, intensivo em mão de obra e dependente de recipientes de barro cuja disponibilidade é cada vez menor.

Segundo responsáveis da Herdade do Rocim, o preço de uma talha passou de cerca de 600 euros em 2014 para aproximadamente 2.000 euros na atualidade. Acresce a preocupação com a escassez de artesãos capazes de fabricar novas talhas, embora muitas das existentes possam durar centenas de anos. 

Esta realidade tem levado vários produtores a reposicionar os seus vinhos no mercado, apostando em gamas de maior valor acrescentado e em processos de envelhecimento que reforçam a complexidade dos vinhos sem desvirtuar a tradição. 

Exportação impulsiona crescimento

Embora os vinhos de talha continuem a representar uma produção relativamente limitada, a procura internacional tem vindo a crescer.

Na Herdade do Rocim, os principais mercados são atualmente Brasil, Estados Unidos e Canadá, refletindo o interesse crescente de consumidores estrangeiros por vinhos associados à história, autenticidade e identidade do Alentejo. Ainda assim, os produtores reconhecem que este continua a ser um perfil vínico exigente, nem sempre de fácil abordagem para quem o prova pela primeira vez. 

Criada para a colheita de 2011, a certificação Talha DOC veio reforçar a proteção desta tradição, estabelecendo regras próprias para uma das expressões vínicas mais emblemáticas do Alentejo. Atualmente, o desafio passa por equilibrar património, inovação e sustentabilidade económica, garantindo que um método de vinificação com dois milénios de história continue a conquistar novos apreciadores dentro e fora de Portugal. 

Texto: alentrium.pt

Fonte: Artigo publicado na revista Decanter, da autoria de Richard Woodard

Augusta Serrano – Jornalista

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