“Guarda o espólio e os testemunhos da antiga aldeia” — em declarações ao Alentrium.pt, André Matoso
O Museu da Luz, na Aldeia da Luz, concelho de Mourão, continua a afirmar-se como um espaço central de preservação da memória coletiva de um território profundamente marcado pela construção da barragem de Alqueva. O número de visitantes tem vindo a recuperar de forma gradual, aproximando-se dos valores registados antes da pandemia, revelou André Matoso, diretor coordenador da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, em declarações ao Alentrium.pt.

“Tem-se verificado uma recuperação progressiva da procura. Depois de uma quebra significativa no período pandémico, estamos hoje a atingir níveis muito próximos dos que registávamos anteriormente, o que demonstra uma retoma consistente do interesse pelo museu”, afirmou.
Ainda assim, o responsável considera que o equipamento cultural permanece aquém do reconhecimento que a sua relevância justificaria. “Pela sua localização geográfica — numa zona periférica do concelho de Mourão e da região do Alentejo — entendemos que o Museu da Luz ainda não tem o número de visitantes que merece, face ao valor patrimonial, histórico e identitário que representa”, sublinhou.
A antiga Aldeia da Luz possui raízes históricas profundas, com ocupação humana que remonta a períodos muito anteriores à formação do Estado português. Ao longo dos séculos, consolidou-se como uma comunidade rural, estruturada em torno da agricultura, das tradições locais e da devoção religiosa.
Este percurso foi profundamente alterado no início do século XXI, com a concretização do projeto de Alqueva. Em 2002, com o enchimento da barragem, a aldeia original foi submersa pelas águas do Guadiana, obrigando à transferência integral da população para uma nova localidade construída de raiz a escassos quilómetros.
O processo envolveu não apenas a construção de novas habitações, mas também a transposição simbólica de elementos identitários essenciais, como o cemitério e a igreja, recriados na nova Aldeia da Luz, garantindo a continuidade da memória coletiva e do sentimento de pertença da comunidade.
É neste contexto que o Museu da Luz assume um papel estruturante, funcionando como espaço de interpretação da história local e de salvaguarda das vivências da antiga aldeia.
“O museu reúne o espólio, as memórias e os testemunhos das vivências da antiga aldeia — desde as profissões às práticas quotidianas — permitindo preservar e transmitir essa identidade às gerações atuais e futuras”, destacou André Matoso.
O equipamento integra coleções de natureza etnográfica e arqueológica, que documentam modos de vida, saberes tradicionais e transformações sociais, constituindo um elo entre o território submerso e a realidade contemporânea.
A própria arquitetura do edifício traduz essa relação com o território. “Trata-se de um projeto arquitetónico intencionalmente discreto, que se integra na paisagem. Apesar de ter sido distinguido, não se impõe visualmente, precisamente porque foi concebido para dialogar com o lugar e não para se destacar dele”, explicou.
Apesar de ser um espaço reconhecido — integrando a Rede Portuguesa de Museus — o Museu da Luz enfrenta desafios ao nível da visibilidade, sobretudo devido à sua localização.
Segundo André Matoso, muitos visitantes chegam à Aldeia da Luz atraídos por outros pontos de interesse, mas nem sempre incluem o museu no percurso. “Há quem venha pela paisagem, pelos passadiços ou pelo património religioso, mas o museu acaba, por vezes, por passar despercebido, o que reforça a necessidade de continuar a trabalhar a sua promoção”, referiu.
Nesse sentido, têm sido desenvolvidas iniciativas em articulação com a Câmara Municipal de Mourão, a Junta de Freguesia da Luz e outras entidades, com o objetivo de reforçar a integração do museu nos circuitos turísticos e culturais da região.
“Este é um trabalho contínuo, que passa por afirmar o Museu da Luz no contexto da rede museológica nacional e por valorizar a sua singularidade enquanto espaço de memória de uma comunidade que viveu um processo único em Portugal”, acrescentou.
Para o responsável da EDIA, o Museu da Luz representa mais do que um espaço expositivo — é um lugar de encontro com a história recente e com a identidade de uma comunidade.
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“O Museu da Luz tem uma característica muito própria: guarda o espólio e os testemunhos da antiga aldeia. É um espaço que permite compreender a profundidade desta transformação e, por isso, vale a pena visitá-lo”, concluiu.
Entrevista de Augusta Serrano
Jornalista


