Sábado, Junho 13, 2026

Mulheres enterradas com armas no Alentejo desafiam visão da Idade do Bronze

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Investigação sobre sepulturas subterrâneas em Serpa revela que mulheres eram enterradas com mais oferendas e objetos de prestígio do que os homens

Um estudo desenvolvido no âmbito da Universidade do Minho concluiu que, há cerca de 3.500 anos, no atual território do concelho de Serpa, no Alentejo, algumas mulheres eram sepultadas com maior quantidade e diversidade de oferendas do que os homens, incluindo objetos considerados de elevado valor simbólico e social, como armas e peças metálicas raras para a época.

A investigação, agora divulgada, questiona a ideia tradicional de que o acesso a bens de prestígio durante a Idade do Bronze estaria reservado exclusivamente aos homens.

Segundo um comunicado da academia minhota, o trabalho resulta da dissertação de mestrado em Arqueologia de Marta Borges, apresentada no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, sob orientação dos professores Ana Bettencourt e Hugo Aluai Sampaio. A investigação deu origem a um artigo científico publicado na revista internacional Quaternary e destacado pelo jornal francês Le Figaro.

O estudo incidiu sobre 57 sepulturas subterrâneas escavadas na rocha — conhecidas como hipogeus — identificadas em sete sítios arqueológicos do concelho de Serpa: Montinhos 6, Outeiro Alto 2, Torre Velha 3 e 12, Aldeia do Grilo 1, Horta do Folgão e Alto de Brinches 3.

Os contextos arqueológicos foram descobertos durante as obras associadas ao regadio da barragem do Alqueva, tendo a investigação reunido dados provenientes de relatórios técnicos e publicações das diferentes equipas arqueológicas que trabalharam no terreno.

De acordo com os resultados, as mulheres surgem frequentemente associadas a vasos de cerâmica, punções metálicos e, em determinados casos, a punhais. Em Torre Velha 3, alguns dos punhais encontrados em sepulturas femininas eram produzidos com uma liga de bronze ainda pouco comum no sul do território português naquele período, sugerindo a existência de redes de troca e circulação de bens a longa distância.

A investigação refere ainda que a presença pontual de uma arma numa sepultura de um indivíduo não adulto poderá indicar que, em certos contextos, o estatuto social poderia ser transmitido no seio familiar.

Ainda assim, Marta Borges sublinha que os vestígios encontrados não permitem concluir que as mulheres sepultadas com armas fossem necessariamente guerreiras, alertando para a necessidade de evitar interpretações simplificadas sobre os papéis sociais da época.

Natural de Santo Tirso, Marta Borges tem 43 anos, é licenciada em Antropologia e mestre em Arqueologia. Atualmente trabalha na empresa Empatia – Arqueologia, Conservação e Restauro, ligada à arqueologia de salvaguarda, dedicando particular interesse à arqueologia funerária, à bioarqueologia e à Idade do Bronze peninsular.

Augusta Serrano | Jornalista

Fonte/foto: Universidade do Minho

Augusta Serrano

Jornalista

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