Sábado, Junho 13, 2026

Maria João Pires Honoris Causa da Universidade de Évora: “A liberdade de pensamento está em risco”

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A Pianista recebeu a mais alta distinção académica da instituição numa cerimónia marcada pela valorização da cultura, da educação e da responsabilidade humana

Universidade de Évora distinguiu a pianista Maria João Pires com o título de Doutora Honoris Causa, numa cerimónia realizada a 27 de maio, na Sala dos Actos do Colégio do Espírito Santo. A instituição académica reconheceu o percurso artístico, pedagógico e humano de uma das mais destacadas intérpretes da música clássica contemporânea. 

A sessão teve início com a intervenção do Reitor da Universidade de Évora, António Candeias, que destacou o contributo singular da pianista para a música e para a sociedade. Segundo o responsável, a distinção presta homenagem não apenas a uma artista de dimensão internacional, mas também a uma personalidade que fez da música uma expressão de escuta, exigência, humanidade e responsabilidade. 

Durante o discurso, António Candeias sublinhou que, num contexto frequentemente marcado pela rapidez e pela superficialidade, Maria João Pires representa valores como o silêncio, a atenção, a profundidade e a verdade. O Reitor destacou ainda a coerência entre a excelência artística e o compromisso ético que marcaram o percurso da pianista ao longo de várias décadas. 

O responsável académico, António Candeias salientou ainda os diversos projectos pedagógicos e comunitários promovidos por Maria João Pires, bem como o seu trabalho junto de jovens músicos. Referiu que a pianista tem defendido modelos de aprendizagem assentes na cooperação, na partilha e na escuta, contrariando uma lógica exclusivamente competitiva. Para António Candeias, estes princípios encontram-se alinhados com a visão da Universidade de Évora de formar cidadãos capazes de pensar criticamente, dialogar e assumir responsabilidades perante os outros. 

Dirigindo-se aos estudantes, o Reitor afirmou que o percurso da pianista constitui um exemplo de rigor, atenção ao detalhe, paciência e profundidade, demonstrando que o talento exige trabalho e que a grandeza artística não depende da arrogância. Defendeu ainda que o futuro não pode ser construído apenas com tecnologia e eficiência, mas também com sensibilidade, imaginação, memória e cultura. 

Após a intervenção do Reitor, a laudatio foi apresentada por Ana Telles, professora do Departamento de Música da Escola de Artes da Universidade de Évora e pianista. A docente destacou a dimensão artística e humana de Maria João Pires, recordando uma carreira internacional iniciada após a conquista de um prémio no Concurso Internacional Comemorativo do Bicentenário de Beethoven, em Bruxelas, em 1970. Desde então, a pianista actuou em algumas das mais prestigiadas salas de concerto do mundo, incluindo o Carnegie Hall, em Nova Iorque, o Royal Festival Hall, em Londres, a Salle Pleyel, em Paris, e o Musikverein, em Viena. 

A cerimónia prosseguiu com a imposição das insígnias doutorais, momento que foi longamente aplaudido pelos presentes. 

No discurso de agradecimento, Maria João Pires centrou a sua reflexão na importância da transmissão humana do conhecimento e da experiência artística. A pianista defendeu que ensinar, aprender e partilhar saberes constituem algumas das experiências mais ricas da condição humana e alertou para os riscos de substituir essas relações por soluções exclusivamente técnicas. 

A nova Doutora Honoris Causa abordou também o crescimento das inteligências artificiais generativas e os interesses económicos associados ao seu desenvolvimento. Manifestou preocupação com a possibilidade de uma excessiva concentração de poder tecnológico afectar princípios fundamentais das democracias, como a liberdade de expressão, a diversidade de pensamento e a capacidade de cada indivíduo desenvolver o seu talento sem condicionamentos. Ainda assim, sublinhou que não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de garantir que esta continue a ser desenvolvida de forma consciente e ao serviço das pessoas. 

No final da intervenção, Maria João Pires agradeceu a distinção recebida, afirmando encará-la não apenas como um reconhecimento do seu percurso, mas também como uma responsabilidade perante a cultura, o pensamento e a consciência humana. 

Os momentos musicais da cerimónia estiveram a cargo da Escola de Artes da Universidade de Évora e do Coro da Universidade de Évora. Após a sessão solene, decorreu uma recepção no Claustro Maior, que reuniu diversas personalidades nacionais e regionais, estudantes e admiradores da pianista. 

Nascida em Lisboa, em 1944, Maria João Pires iniciou-se no piano aos três anos de idade e realizou o primeiro concerto público aos quatro. Estudou no Conservatório de Lisboa e prosseguiu a formação na Alemanha com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. A partir da década de 1980 consolidou uma carreira internacional de referência, actuando com algumas das mais importantes orquestras e maestros do mundo. Paralelamente, tem desenvolvido uma intensa actividade pedagógica e comunitária, nomeadamente através do projecto Belgais – Centro para o Estudo das Artes, criado em 1999. 

Fotografias. UE

Augusta Serrano | Jornalista

Augusta Serrano

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