Autora apresentou, em Alandroal, a obra Cultura e Desenvolvimento Regional Sustentável no Alentejo, resultado de três décadas de investigação sobre os recursos endógenos da região
ALANDROAL — O Fórum Cultural e Transfronteiriço de Alandroal acolheu, este sábado, 27 de junho, a apresentação do livro Cultura e Desenvolvimento Regional Sustentável no Alentejo, da investigadora e antropóloga Ana Paula Fitas, numa iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Alandroal em parceria com a autora e a editora, integrada na programação cultural do concelho.

O Alentrium.ptesteve presente na sessão e conversou com a autora, que explicou a visão que sustenta esta obra, fruto de cerca de 30 anos de investigação científica, e defendeu uma estratégia de desenvolvimento regional assente na valorização dos recursos próprios do Alentejo.
Segundo Ana Paula Fitas, um Alentejo sustentável é aquele que consegue afirmar-se sem depender exclusivamente de investimentos externos ou de decisões tomadas fora da região.
“Para mim, um Alentejo sustentável é um Alentejo que não depende de investimentos externos e de decisões que são exteriores à população, aos concelhos e aos autarcas da região.”
A investigadora reconheceu que, apesar do aumento do investimento registado nos últimos anos, este continua a revelar-se insuficiente para inverter problemas estruturais que persistem há várias décadas.
“O ritmo desses investimentos tem sido muito lento. Há mais de 40 anos que deveríamos estar a resolver fenómenos como a desertificação e a saída dos jovens para os grandes centros urbanos ou para o estrangeiro.”
Na sua perspetiva, o futuro da região passa por um modelo económico que valorize os recursos endógenos e reduza a vulnerabilidade às oscilações dos mercados internacionais.
“Há que pensar um desenvolvimento que tenha como base não as matérias-primas, os investimentos e as indústrias do exterior, mas os recursos próprios da região, que nos assegurem sobreviver enquanto território e enquanto comunidades locais.”
Um Alentejo com várias realidades culturais

Durante a entrevista concedida ao Alentrium.pt, Ana Paula Fitas abordou também as diferenças existentes entre os diversos territórios alentejanos, defendendo que a região não pode ser analisada como uma realidade homogénea.
Segundo explicou, o Norte Alentejano apresenta afinidades culturais com a Extremadura espanhola e a Beira Baixa, enquanto o Baixo Alentejo possui características que o aproximam igualmente da Andaluzia.
A autora propõe, por isso, o reconhecimento de diferentes culturas regionais dentro do Alentejo, considerando que essa diversidade pode constituir um fator de desenvolvimento.
“O Alentejo não é uma única região. Existem diferentes culturas regionais e é precisamente essa riqueza que pode ser valorizada para construir um modelo de desenvolvimento mais equilibrado.”
Acrescentou ainda que o distrito de Évora reúne condições para ser entendido como uma cultura regional própria, integrada numa área cultural ibérica mais vasta, defendendo que outros territórios do Alentejo poderão seguir caminho semelhante através de mais investigação científica.

Uma carreira dedicada à investigação e ao ensino
Natural de Évora, Ana Paula Fitas desenvolveu grande parte da sua carreira como professora universitária, tendo igualmente trabalhado em projetos ligados ao combate à pobreza, à igualdade de género, ao combate à discriminação e à integração de imigrantes.
Antes do ensino superior, lecionou no ensino secundário em vários pontos do Alentejo.
Ao longo do percurso académico publicou diversos trabalhos científicos, tanto em coautoria como individualmente. Entre eles destacam-se estudos sobre religiosidade popular alentejana, sociabilidades e culturas da fronteira luso-espanhola, bem como a sua dissertação de mestrado, Ocupação Sexual dos Espaços e Redes de Comunicação Social em Aldeia da Venda, realizada no concelho de Alandroal.
Publicou igualmente o estudo etnológico comparado Olivença e Juromenha – Uma História por Contar e um livro de contos inspirados em histórias reais do concelho de Alandroal.
A obra agora apresentada corresponde ao seu trabalho de pós-doutoramento e procura transformar décadas de investigação académica numa proposta prática para o desenvolvimento sustentável do território alentejano.

“Este trabalho é a tentativa da aplicação prática de todo o conhecimento que adquiri ao longo destes anos. Vamos ver se resulta.”
A sessão permitiu aos participantes conhecer os principais conceitos da obra e refletir sobre novos modelos de valorização do território, tendo reunido público interessado nas áreas da cultura, do desenvolvimento regional e da identidade do Alentejo.
Augusta Serrano – Jornalista


