Fundador do Observatório do Lago Alqueva destaca a dimensão científica, educativa e humana do fenómeno observado em Monsaraz. Investigadores, crianças e público acompanharam uma tarde dedicada à astronomia no Alentejo.
O eclipse solar observado em Monsaraz foi mais do que um fenómeno raro no céu. Para Leonel Godinho, fundador do Observatório do Lago Alqueva (OLA), constituiu também uma oportunidade para aproximar a ciência das pessoas, recolher informação para investigação e despertar nos mais novos a curiosidade pelo conhecimento científico.
Em entrevista ao Alentrium.pt, realizada durante a observação do eclipse solar promovida pelo OLA na Ermida de São Miguel, em Monsaraz, Leonel Godinho explicou que a escolha de um espaço exterior ao observatório procurou permitir ao público acompanhar não apenas o eclipse, mas também as alterações que o fenómeno provoca na paisagem e no comportamento da natureza.
“O Eclipse é muito importante, não é só pela espetacularidade que tem, mas sim para que a ciência possa evoluir com alguns elementos que se estudam, com aquilo que se capta no Eclipse.”
O responsável recordou, a propósito da importância histórica destes fenómenos para a ciência, o papel desempenhado pelos eclipses na descoberta do hélio, elemento inicialmente identificado através da análise da luz solar e posteriormente encontrado na Terra.
A localização escolhida em Monsaraz teve também, segundo Leonel Godinho, uma componente deliberadamente paisagística e pedagógica.
O objetivo passava por permitir observar a progressão da sombra sobre a paisagem alentejana e perceber alterações no ambiente à medida que a luminosidade diminuía.
“Escolhemos o local já por causa disso, para que as pessoas possam perceber a sombra que vai varrendo esta paisagem do Alentejo”, explicou.
Leonel Godinho chamou igualmente a atenção para as mudanças no comportamento dos animais, incluindo no canto das cigarras, defendendo que um eclipse pode ser observado a partir de diferentes perspetivas.
Para o fundador do OLA, tratou-se de um acontecimento com dimensões científica, social e humana, para além do impacto visual que habitualmente concentra a atenção do público.
A observação mobilizou também investigadores e instituições científicas e académicas, que aproveitaram o fenómeno para recolher informação destinada a análise posterior.
“Tivemos aqui o Instituto Superior Técnico, tivemos aqui a Faculdade de Ciências, portanto tivemos aqui muitos investigadores que estiveram a recolher informação para que posteriormente possamos analisar”, afirmou Leonel Godinho.
O fundador do Observatório do Lago Alqueva confessou, aliás, que gostaria de ter acompanhado o eclipse com maior tranquilidade, mas a presença de público, investigadores e crianças obrigou-o a dividir a atenção ao longo do evento.
Essa participação alargada era, contudo, precisamente um dos objetivos da iniciativa.
A transmissão do conhecimento científico às novas gerações assumiu particular importância na programação preparada pelo OLA.
Leonel Godinho defendeu que é necessário proporcionar às crianças experiências que lhes permitam compreender a ciência para além dos dispositivos digitais que fazem hoje parte do quotidiano.
“Temos que passar às crianças, isto logo desde o início”, afirmou, acrescentando: “Não nos podemos esquecer delas, e passar-lhes conhecimento científico.”
Segundo o responsável, a educação científica deve abranger diferentes idades e níveis de conhecimento, desde as crianças aos investigadores e ao ensino superior.
O objetivo, explicou, é mostrar também o trabalho científico que existe por detrás das tecnologias que os mais novos utilizam diariamente.
Do eclipse à chuva de estrelas e ao alinhamento de planetas
A atividade em Monsaraz não terminou com o eclipse.
Depois da observação do fenómeno e do pôr do sol, a programação prosseguiu no Observatório do Lago Alqueva, aproveitando as condições do céu para uma tarde dedicada a diferentes fenómenos astronómicos.
“Hoje tivemos um conjunto de elementos e de acontecimentos únicos”, concluiu Leonel Godinho.
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“Nós estamos com um céu magnífico”, salientou.
A noite reservava ainda a observação de uma chuva de meteoros com um alinhamento de planetas.

O céu escureceu sobre o Alqueva e centenas viveram o eclipse em Monsaraz
https://alentrium.pt/video-o-ceu-escureceu-sobre-o-alqueva-e-centenas-viveram-o-eclipse-em-monsaraz/
A iniciativa voltou assim a colocar Monsaraz e o céu do Alqueva como espaço de encontro entre investigação, divulgação científica e observação astronómica, numa noite em que o eclipse levou investigadores, famílias e curiosos a olhar para o céu a partir do Alentejo.
Augusta Serrano- jornalista


