Segunda-feira, Agosto 10, 2026

“Isto é o princípio”: Vila Viçosa inaugura a reabilitação da Ermida de São João Baptista

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Presidente da Câmara considera que a reabilitação da Ermida de São João Baptista da Carrasqueira representa “não o fim, mas o princípio” de uma estratégia de valorização do património do concelho.

A inauguração da empreitada de reabilitação e conservação da Ermida de São João Baptista da Carrasqueira, em Vila Viçosa, ficou marcada por um anúncio político de longo alcance. Perante o Secretário de Estado da Cultura, Juventude e Desporto, Alberto Santos, e diversas entidades civis, militares e religiosas, o presidente da Câmara Municipal, Inácio Esperança, afirmou que a recuperação daquele monumento integra uma estratégia de valorização do património histórico do concelho com um horizonte de 30 anos.

No discurso a que o Alentrium.pt assistiu, o autarca defendeu que a intervenção agora concluída representa apenas o início de um percurso mais vasto.

“É com muita alegria que estou aqui hoje. Porque para mim isto representa não o fim, mas o princípio.”

Segundo Inácio Esperança, Vila Viçosa possui um património de enorme valor histórico, mas que, em muitos casos, se encontra degradado devido à insuficiência de investimento ao longo de décadas.

“Temos em Vila Viçosa um património imenso (…) e está efetivamente em muito más condições. De facto, não temos cuidado bem do património até hoje.”

O presidente explicou que a comparticipação comunitária obtida para esta intervenção foi determinante, não apenas pelo apoio financeiro direto, mas também porque permitiu enquadrar o restante investimento municipal sem impacto nos limites de endividamento da autarquia, criando margem para avançar com novos projetos de recuperação.

Lapa, Nossa Senhora da Conceição e Santo António entre as próximas prioridades

Durante a intervenção, o autarca revelou que o município já está a preparar novas obras de conservação em vários edifícios religiosos do concelho.

Entre as prioridades identificadas estão a recuperação da Hospedaria da Lapa e da Casa dos Peregrinos, junto ao Santuário da Lapa, bem como intervenções no Santuário de Nossa Senhora da Conceição e na Igreja de Santo António, edifícios que descreveu como necessitando de obras urgentes.

Para concretizar estes investimentos, Inácio Esperança apelou ao apoio do Governo e explicou que o município está a recorrer aos ARI, conhecidos como “vistos gold para a cultura”, como forma de captar investimento privado para a recuperação do património.

Segundo afirmou, já foram apresentados três projetos ao Ministério da Cultura, aguardando aprovação para que possam ser angariadas verbas junto de investidores e iniciadas as respetivas empreitadas.

Quatro anos de espera até recuperar a ermida

O presidente recordou igualmente o longo percurso que antecedeu a intervenção agora inaugurada.

Explicou que, quando o atual executivo tomou posse, a cobertura da ermida encontrava-se parcialmente destruída e a autarquia disponibilizou cerca de 23 mil euros para reparar o telhado. Contudo, uma denúncia anónima levou à suspensão da obra pela então Direção Regional de Cultura, situação que obrigou o edifício a permanecer protegido apenas por uma lona durante cerca de quatro anos.

Segundo relatou, esse período permitiu o agravamento das infiltrações, embora considere que a suspensão acabou por conduzir a uma solução tecnicamente mais adequada.

Durante a elaboração do projeto foram realizados novos estudos que permitiram concluir que a ermida originalmente não possuía telhas na cobertura, tendo estas sido acrescentadas apenas no final do século XIX ou início do século XX para minimizar problemas de infiltrações. Essa descoberta obrigou à reformulação integral do projeto de recuperação, posteriormente aprovado pelas entidades da tutela.

Reconhecimento aos técnicos e ao empreiteiro

No discurso, Inácio Esperança fez questão de agradecer o trabalho desenvolvido pela Fábrica da Igreja Paroquial, pelos arquitetos envolvidos, pelos serviços técnicos da Câmara Municipal e pela empresa responsável pela empreitada.

Destacou particularmente a complexidade técnica da intervenção e a reprodução das telhas vidradas originais, realizada a partir dos poucos exemplares históricos ainda existentes e sujeita à certificação das entidades da área do património.

O autarca considerou que encontrar uma empresa com capacidade para executar uma obra desta natureza constituiu um dos fatores decisivos para o sucesso da intervenção.

Património Mundial exige compromisso de três décadas

Uma parte significativa da intervenção incidiu sobre a candidatura de Vila Viçosa a Património Mundial da UNESCO.

Segundo explicou, o processo deixou de ser apenas uma candidatura municipal para passar a constituir uma candidatura do Estado português, encontrando-se atualmente em fase de avaliação internacional.

Nesse contexto, revelou que foi elaborado um plano de gestão com duração de 30 anos, envolvendo o Município e a Fundação da Casa de Bragança, que estabelece um compromisso continuado de investimento na conservação do património histórico.

“Estamos a assumir, nós de Vila Viçosa e o Estado Português, um compromisso de reabilitar o nosso território e o nosso património em 30 anos.”

O presidente acrescentou que esse plano inclui já a Ermida de São João Baptista da Carrasqueira, o Santuário da Lapa, a Igreja de Santo António e outros imóveis considerados estratégicos para a preservação da identidade histórica do concelho.

“Há que fazer opções”

Na parte final da intervenção, Inácio Esperança dirigiu-se diretamente aos calipolenses para justificar as prioridades assumidas pelo executivo municipal.

Reconhecendo que os recursos financeiros são limitados, afirmou que o município optou por canalizar investimento para a recuperação do património, mesmo que isso implique abdicar de outro tipo de iniciativas.

“Se calhar não vamos poder ter coisas muito bonitas como gostávamos. Não vamos poder ter Tony Carreira nos nossos concertos. Mas vamos, de certeza, fazer tudo para reabilitar o nosso património.”

O autarca concluiu apelando à compreensão da população e defendendo que a estratégia agora iniciada deverá prolongar-se para além dos atuais mandatos autárquicos.

“Este é o nosso compromisso, é a nossa estratégia (…) porque pensamos legar este património aos nossos filhos, netos e a quem vier a seguir.”

Augusta Serrano – Jornalista

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