Projeto vínico de Montemor-o-Novo aposta nas castas autóctones, no enoturismo e numa escola de vinhos inspirada no modelo internacional WSET
A história da Quinta da Plansel, em Montemor-o-Novo, começou de forma inesperada, depois de um naufrágio em Cascais ter alterado os planos do empresário alemão Jörg Böhm, em 1961. O produtor pretendia realizar uma viagem à volta do mundo, mas acabou por permanecer em Portugal e descobrir no Alentejo o território ideal para desenvolver um projeto ligado ao vinho.

A recordação é partilhada por Dorina Lindemann, filha de Jörg Böhm e atual responsável pela quinta, numa entrevista à NiT. Segundo explica, o empresário alemão ficou impossibilitado de abandonar o País durante o período do Estado Novo e acabou por criar uma forte ligação a Portugal.
“Ele acabou por apaixonar-se por Portugal e o coração ficou por aqui”, refere Dorina Lindemann.
Foi durante uma viagem pelo Alentejo que Jörg Böhm identificou potencial para investir na vitivinicultura. Contudo, apenas nos anos 70 conseguiu adquirir uma propriedade em Montemor-o-Novo, onde iniciou a produção de vinho.
Segundo Dorina, o empresário considerava a região um “terroir fantástico” para a plantação de vinhas e procurou aprofundar o conhecimento sobre as castas portuguesas. Para isso, estabeleceu uma relação próxima com o professor Francisco Colaço Rosário, realizando viagens ao norte do País para estudar a diversidade vitícola nacional.
Nos anos 90 nasceu oficialmente a Quinta da Plansel, projeto que rapidamente ganhou notoriedade pela valorização das castas autóctones portuguesas e por uma abordagem diferenciadora na seleção de plantas e clonagem de videiras.
O próprio nome da quinta resulta dessa filosofia: “Plansel” significa “planta selecionada”.
Atualmente, a propriedade destaca-se por desenvolver um trabalho de clonagem de videiras considerado único em Portugal. Segundo Dorina Lindemann, a quinta seleciona plantas com características específicas, mais resistentes e diferenciadoras, para posterior propagação.
“Somos os únicos em Portugal, nem o Estado tem material de clone”, afirma a empresária.
Dorina Lindemann chegou a Portugal nos anos 80, depois de concluir a licenciatura em Viticultura e Tecnologia de Adega, na Universidade de Geisenheim, na Alemanha.
A empresária recorda que, na altura, o setor era maioritariamente masculino.
“Na nossa turma, tínhamos 99 homens e apenas duas mulheres. Foi uma luta para vencer neste meio”, refere.
Depois de trabalhar ao lado do pai, Dorina criou, em 1997, aquela que descreve como a primeira adega portuguesa liderada exclusivamente por mulheres.
Hoje, a gestão da quinta é partilhada com as filhas, Júlia e Luísa Lindemann, de 32 e 30 anos. Júlia está ligada às áreas da administração e marketing, enquanto Luísa acompanha a produção vínica.
Com cerca de 55 hectares de vinha, a Quinta da Plansel reforçou também a aposta no enoturismo. Em 2022, inaugurou duas unidades de alojamento — Alicante e Arinto — localizadas junto às vinhas e com vista para o castelo de Montemor-o-Novo.
As casas dispõem de dois quartos e piscina privada.
Outro dos espaços de destaque é a galeria de arte da propriedade, que reúne obras originais de artistas alemães e serve igualmente de cenário para provas de vinho.
A quinta promove ainda experiências enoturísticas diferenciadas, incluindo provas sensoriais com copos pretos, desafiando os visitantes a identificar os vinhos apenas através do aroma e sabor.
Além disso, organiza anualmente a “Plansel Rosé Party”, evento realizado no meio das vinhas para celebrar os vinhos produzidos na propriedade. A edição deste ano está marcada para 30 de maio e será dedicada aos rosés e brancos da casa.
Durante o evento será também apresentada a nova gama “Touriga Goes Low”, descrita pela quinta como uma proposta contemporânea da casta Touriga Nacional, orientada para vinhos mais leves e frescos.
A propriedade acolhe ainda a Plansel Wine School, criada em parceria com Wilmy Matton, professora de vinhos nos Países Baixos e apreciadora da vitivinicultura portuguesa.
O objetivo passa por trazer para Portugal o modelo formativo WSET (Wine & Spirit Education Trust), um sistema internacional de ensino vínico com presença em dezenas de países.
A iniciativa pretende reforçar a formação especializada na área do vinho e aproximar o público do conhecimento técnico associado à vitivinicultura portuguesa.
Fonte: NiT
Augusta Serrano | jornalista


