Há sons que pertencem ao Alentejo.
O ranger da madeira na oficina, o bater ritmado das ferramentas e o entrelaçar paciente da palha fazem parte dessa memória coletiva que atravessa gerações.
Em Redondo, Joaquim Boavida continua a dar vida às tradicionais cadeiras alentejanas, num ofício que aprendeu ainda jovem e que, mais de quatro décadas depois, permanece ligado à identidade da região. Entre tábuas de madeira, medidas feitas à mão e técnicas passadas de geração em geração, cada cadeira nasce devagar, como antigamente.
Durante muitos anos, estas peças fizeram parte das cozinhas alentejanas, das lareiras de chão e das casas caiadas onde a cadeira não era apenas um objeto, mas quase um elemento da família. Como recorda o próprio artesão, “quando a criança nasce, a cadeira alentejana já tem de estar em casa”.
Hoje, apesar das mudanças nos modos de vida e da industrialização do mobiliário, as cadeiras continuam a encontrar lugar no Alentejo e muito para lá dele. Das casas típicas da região às sofisticadas habitações da Comporta, o mobiliário artesanal alentejano ganhou nova valorização, mantendo a autenticidade das suas raízes.
Na oficina, Joaquim Boavida e a esposa acompanham todo o processo de produção, desde a preparação da madeira até à pintura final. Um trabalho manual que exige tempo, conhecimento e dedicação, mas que continua a conquistar quem procura peças ligadas à tradição e à autenticidade.
Ainda assim, o artesão olha para o futuro com preocupação. Recorda um tempo em que muitas crianças aproveitavam as férias escolares para aprender o ofício nas oficinas locais, algo que hoje praticamente desapareceu. Com menos artesãos e poucas novas gerações interessadas em aprender, teme que esta arte tradicional possa perder-se com o passar dos anos.
O Alentrium.pt esteve em Redondo para conhecer de perto uma tradição que continua a resistir ao tempo pelas mãos de quem se recusa a deixar desaparecer uma parte da alma do Alentejo.
Augusta Serrano | Jornalista


