Quarta-feira, Setembro 16, 2026

Castro Almeida em Estremoz: “Há 100 anos, uma geração de estremocenses acreditou que esta terra tinha um destino maior”

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Ministro da Economia e da Coesão Territorial assinalou o centenário da elevação de Estremoz a cidade e defendeu uma nova visão para o interior, centrada no investimento, na atração de talento, no emprego qualificado e na valorização dos recursos locais.

Cem anos depois da elevação de Estremoz a cidade, o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, deixou este domingo uma mensagem que cruzou a memória histórica do concelho com os desafios das próximas gerações e defendeu que Portugal deve mudar a forma como olha para os territórios do interior.

Há 100 anos, uma geração de estremocenses acreditou que esta terra tinha um destino maior”, afirmou o governante, nas comemorações do centenário, considerando que a responsabilidade atual passa por estar à altura dessa ambição, “não para repetir o passado, mas para definir o futuro”.

A cerimónia assinalou os 100 anos da elevação da então vila de Estremoz à categoria de cidade, ocorrida a 31 de agosto de 1926, através do Decreto-Lei n.º 12.227.

As comemorações começaram junto ao busto de José Lourenço Marques Crespo, presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Estremoz em 1926 e uma das figuras marcantes da vida política, social e cultural do concelho. No local foi depositada uma coroa de flores, seguindo-se uma arruada até aos Paços do Concelho.

Uma história que “não começou em 1926”

Na sua intervenção, Castro Almeida começou por recuar muito para além do acontecimento que Estremoz agora celebra.

“Há 100 anos o Estado reconheceu formalmente aquilo que os estremocenses já muito sabiam, que esta comunidade reunia a relevância histórica, económica, social e cultural próprias de uma cidade”, afirmou.

Mas o ministro salientou que a história de Estremoz não pode ser reduzida ao último século.

O que hoje celebramos é apenas um capítulo de uma história muito mais longa e muito mais rica”, declarou.

Castro Almeida evocou a ligação da Rainha Santa Isabel à cidade e o papel desempenhado por Estremoz em diferentes momentos da construção e defesa de Portugal, desde a crise de 1383-1385 aos episódios da Guerra da Restauração.

“A história de Portugal não foi construída apenas em Lisboa, ou no Porto, ou nas grandes cidades e centros urbanos. Foi também construída em cidades como Estremoz”, sustentou.

Já no século XX, destacou a participação dos militares do Regimento de Cavalaria n.º 3, que partiram de Estremoz para se associarem ao movimento militar que conduziu ao restabelecimento da liberdade e da democracia em Portugal.

Para o ministro, essa presença em momentos decisivos da vida nacional constitui “um dos traços mais notáveis da identidade estremocense”.

“A grande força de Estremoz não reside apenas no seu passado”

O discurso mudou depois de direção. Da história, Castro Almeida passou para aquilo que considera serem os ativos de Estremoz para construir o futuro.

A grande força de Estremoz não reside apenas no seu passado. Reside na forma como soube transformar a sua herança em futuro”, afirmou.

Entre esses recursos, destacou o mármore de Estremoz, cuja projeção ultrapassou as fronteiras portuguesas e que, trabalhado ao longo de sucessivas gerações, está presente em edifícios, monumentos e outros espaços em Portugal e no estrangeiro.

Mas fez questão de sublinhar que Estremoz “não é apenas mármore”.

O governante apontou também o vinho e o azeite, representativos da qualidade da produção alentejana, o património histórico, a paisagem, a cultura e a capacidade produtiva e empreendedora das empresas locais.

Castro Almeida referiu igualmente os Bonecos de Estremoz e o reconhecimento internacional desta tradição através da sua inscrição como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Acima dos recursos materiais, colocou, contudo, as pessoas.

Nenhuma cidade se afirma apenas pelos monumentos que possui ou pelos recursos de que dispõe. Afirma-se, sobretudo, pelo talento, pela energia e pela capacidade de trabalho daqueles que nela vivem”, afirmou.

“Temos de mudar este discurso” sobre o interior

Foi a partir de Estremoz que Castro Almeida alargou depois a intervenção ao futuro dos territórios do interior.

O ministro reconheceu que, durante demasiado tempo, o debate se concentrou no envelhecimento, na perda de população, na distância aos grandes centros urbanos e nas limitações destes territórios.

Temos de mudar este discurso e devemos começar a falar das oportunidades”, defendeu.

Para Castro Almeida, o interior não pode continuar a ser encarado como uma realidade periférica da economia portuguesa.

O interior não é uma periferia da economia nacional. É uma parte fundamental da sua capacidade produtiva”, afirmou.

O governante identificou nestes territórios “recursos estratégicos, património natural e cultural, capacidade exportadora” e espaço disponível para crescer.

Por isso, considerou que a questão já não deve ser apenas saber como compensar as desvantagens do interior, mas perceber como potenciar as suas vantagens.

Isso implica, segundo o ministro, “criar mais condições para investir, atrair talento, fixar jovens, gerar emprego qualificado” e transformar os recursos existentes em mais riqueza, inovação e prosperidade.

Estremoz como exemplo

Castro Almeida apresentou a própria cidade como exemplo dessa possibilidade.

Estremoz demonstra que esse caminho é possível. Demonstra que tradição e modernidade não são conceitos incompatíveis”, afirmou.

Na perspetiva do ministro, uma identidade territorial forte não constitui um obstáculo à modernização. Pelo contrário, pode transformar-se numa vantagem para o desenvolvimento.

A mesma lógica, afirmou, está subjacente à ação do Governo: construir um país “mais competitivo, mais inovador e mais produtivo”, mas simultaneamente “mais coeso”.

“Um país onde o sucesso não esteja concentrado apenas em algumas regiões e onde todas as comunidades possam desenvolver o seu potencial”, acrescentou, defendendo condições que permitam aos jovens escolher onde querem construir a sua vida.

“Não existe coesão territorial sem autarquias fortes”

O centenário de Estremoz praticamente coincide, lembrou ainda Castro Almeida, com outro marco: os 50 anos do poder local democrático, assinalados em 2026.

O ministro destacou a transformação produzida pelos municípios ao longo das últimas cinco décadas e considerou as autarquias, “em regra, a face mais próxima e mais eficaz da ação pública”.

Não existe coesão territorial sem autarquias fortes”, afirmou.

Para Castro Almeida, muitas das melhores respostas aos desafios do país resultam precisamente “da proximidade, do conhecimento do terreno e da capacidade de mobilização das comunidades locais”.

Preparar Estremoz para os próximos 100 anos

No final da intervenção, o ministro regressou ao significado do centenário e à geração que, em 1926, viu Estremoz alcançar o estatuto de cidade.

A ambição para o próximo século, afirmou, deve passar por criar oportunidades para os mais jovens, apoiar quem investe e cria emprego, valorizar o património sem o transformar numa “peça de museu” e manter a identidade como fator de desenvolvimento.

O futuro de Portugal não se decide apenas nas áreas metropolitanas”, declarou.

Decide-se também, acrescentou, em cidades como Estremoz, “que preservam a memória sem receio da mudança, que honram a sua história, mas recusam viver apenas da história”.

A melhor homenagem ao passado é construir um futuro melhor”, afirmou.

E terminou com uma frase que ligou os vários séculos de história da cidade aos desafios das próximas gerações:

Ao longo dos séculos, Estremoz ajudou a guardar Portugal. Estou convencido de que ajudará também a construir o Portugal das próximas gerações.

As comemorações do centenário incluíram ainda, nos Paços do Concelho, o descerramento de uma placa comemorativa dos 100 anos da elevação a cidade e a assinatura do Livro de Honra, um momento musical pelo Orfeão de Estremoz “Tomaz Alcaide”, a homenagem às entidades centenárias do concelho e a apresentação do vídeo do centenário. A cerimónia terminou com a interpretação do Hino Nacional pela Banda da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense e um espetáculo de fogo de artifício.

Reportagem: Augusta Serrano – Jornalista

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