Quarta-feira, Outubro 7, 2026

Biblioteca Nacional põe séculos de memória portuguesa à distância de um clique

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Projeto desenvolvido entre 2022 e 2026 superou a meta de 30 milhões de imagens digitalizadas. O investimento financiado pelo PRR atingiu 7,7 milhões de euros e abrangeu manuscritos, periódicos, música, cartografia, iconografia e outros documentos.

A Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) concluiu um dos maiores projetos de digitalização das suas coleções, ultrapassando a meta de 30 milhões de imagens e abrindo caminho à consulta online de um vasto património documental que atravessa vários séculos da história e da cultura portuguesas.

Os resultados do projeto, desenvolvido entre 2022 e 2026, foram apresentados na BNP, em Lisboa, numa sessão que marcou a conclusão do investimento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) destinado às Redes Culturais e Transição Digital.

O contrato previa inicialmente um investimento de 7,4 milhões de euros, tendo o financiamento final atingido 7.712.800 euros.

Segundo a diretora de Serviços de Coleções Especiais da Biblioteca Nacional, Dália Guerreiro, o trabalho abrangeu mais de 11 tipologias documentais, incluindo cartografia, iconografia, impressos, manuscritos, microfilmes, música e periódicos. Estes últimos encontram-se entre as coleções mais consultadas da instituição.

Uma sala criada de raiz e 90 mil imagens por dia

A dimensão da operação obrigou a Biblioteca Nacional a criar uma sala especificamente destinada a receber os documentos originais e os equipamentos necessários à digitalização.

No período de execução, o projeto alcançou uma média de cerca de 90 mil imagens digitalizadas por dia.

Uma das áreas abrangidas foi a música. A coleção da BNP, considerada uma das mais relevantes do país, teve mais de 27.500 documentos digitalizados, num trabalho que envolveu especialistas de diferentes áreas, entre os quais musicólogos e instrumentistas.

De acordo com Sílvia Sequeira, responsável pela área da música, as coleções de música e iconografia da Biblioteca Nacional reúnem mais de 200 mil espécies de manuscritos musicais, dos séculos XIII a XVII, e mais de 117 mil espécies de documentos iconográficos.

No âmbito do mesmo projeto foram ainda digitalizados 20.116 cartazes pertencentes à coleção de iconografia.

Sete séculos de cultura escrita

Nos reservados da Biblioteca Nacional, a intervenção chegou às coleções de códices e manuscritos avulsos, abrangendo sete séculos de cultura portuguesa escrita, entre os séculos XIV e XX.

O processo de digitalização teve também uma dimensão de conservação. Alguns documentos encontravam-se fragmentados ou danificados, enquanto outros apresentavam intervenções antigas que dificultavam ou impediam a reprodução digital.

Em determinados casos foi necessário remover restauros anteriores, incluindo costuras realizadas em zonas rasgadas das folhas que ocultavam informação escrita. Só depois de novos trabalhos de conservação e restauro foi possível avançar com a digitalização desses documentos.

Entre os conjuntos abrangidos encontra-se a Coleção Pombalina, constituída por documentação relacionada com a administração portuguesa durante o período do Marquês de Pombal. Desta coleção foram digitalizados mais de 17 mil fólios.

Originais preservados, documentos acessíveis online

As reproduções destinam-se a ser disponibilizadas através da Biblioteca Nacional Digital e do arquivo digital. Além de alargar o acesso às coleções, a consulta através de cópias digitais permite diminuir o manuseamento dos documentos originais.

Dália Guerreiro sublinha, contudo, que a preservação digital não substitui a conservação física das coleções. O projeto permitiu igualmente consolidar conhecimentos e testar metodologias que poderão ser utilizadas em futuras operações.

«O final do PRR não é o fim de um processo, é o início de uma nova etapa», afirmou a responsável, acrescentando que «há mais documentos para digitalizar».

Na sessão de encerramento, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, destacou a superação da meta estabelecida para o projeto e apontou a digitalização como instrumento simultâneo de preservação e de alargamento do acesso ao património.

«A missão essencial desta instituição permanece: preservar a nossa memória coletiva e garantir que possa ser conhecida, estudada e transmitida às novas gerações», afirmou.

A governante salientou ainda a importância das cópias digitais perante cenários extremos, como incêndios ou inundações, mas também face à degradação natural dos suportes físicos ao longo do tempo.

«Não substitui o original, mas protege aquilo que o original contém», declarou.

A digitalização permite, simultaneamente, que documentação anteriormente dependente da consulta presencial fique acessível a investigadores, estudantes e leitores independentemente da sua localização.

Para Margarida Balseiro Lopes, esta transformação tem também uma dimensão internacional. «A transformação digital é também uma oportunidade para aumentar a presença e a visibilidade da cultura portuguesa no mundo», afirmou.

A ligação do Registo Nacional de Objetos Digitais à Europeana deverá contribuir, segundo a ministra, para ampliar a projeção internacional do património bibliográfico português.

Concluído o investimento do PRR, o trabalho de digitalização da Biblioteca Nacional deverá prosseguir, numa instituição que conserva coleções cuja dimensão ultrapassa largamente o universo já convertido para formato digital.

Fonte: Agência Lusa

Foto: Gubi.com

Augusta Serrano- jornalista

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