Segunda-feira, Julho 20, 2026

Azeite, vinho e frutas entre os setores que podem beneficiar do acordo Mercosul, enquanto a carne bovina levanta reservas

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O Alentrium.pt falou com o presidente da ACOS sobre as conclusões da sessão de esclarecimento realizada em Beja

Os potenciais impactos do acordo entre a União Europeia e o Mercosul na agricultura portuguesa estiveram no centro da sessão de esclarecimento promovida, em Beja, pela Federação das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA), pela ACOS – Associação de Agricultores do Sul e pela CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal.

O encontro, que reuniu cerca de 200 agricultores presencialmente e várias dezenas em formato online, teve como objetivo aprofundar o debate em torno da reforma da Política Agrícola Comum (PAC) e esclarecer os produtores sobre um acordo que continua a gerar dúvidas e posições divergentes no setor.

Em declarações ao Alentrium.pt, o presidente da ACOS, Rui Garrido, sublinhou que a iniciativa respondeu a uma necessidade sentida no terreno.
“Esta foi essencialmente uma sessão de trabalho e de esclarecimento. No caso da reforma da PAC, há um entendimento generalizado de que a proposta apresentada pela Comissão Europeia não serve os interesses do setor. Já relativamente ao acordo com o Mercosul, existia muita falta de informação e alguma desinformação, o que tornava fundamental explicar, com detalhe, um acordo que é tecnicamente complexo e muito extenso”, afirmou.

Segundo o dirigente, a análise apresentada pela CAP aponta para um impacto diferenciado consoante os setores agrícolas.
“O acordo pode ser potencialmente favorável para algumas fileiras da agricultura portuguesa e menos favorável para outras. No caso da nossa região, setores como o azeite, o vinho, as frutas e os queijos poderão sair beneficiados, desde que Portugal consiga fazer o seu trabalho de promoção e valorização desses produtos”, referiu.

Rui Garrido destacou ainda o potencial de acesso a novos mercados.
“Estamos a falar de países com milhões de consumidores, incluindo um mercado com cerca de 210 milhões de pessoas que falam português. Esta é uma vantagem competitiva que Portugal pode e deve saber aproveitar”, acrescentou.

Por outro lado, o setor da carne bovina surge como o mais exposto a riscos.
“O setor das carnes, em particular a bovina, é aquele que à partida não sai reforçado com este acordo. Ainda assim, existem mecanismos de salvaguarda que importa sublinhar”, explicou.

Entre essas salvaguardas, o presidente da ACOS destacou a limitação das quantidades e a possibilidade de suspensão do acordo em determinadas circunstâncias.
“Está prevista uma quota máxima de cerca de 99 mil toneladas adicionais de carne bovina com taxas reduzidas, o que representa um aumento muito limitado no contexto europeu. Se essa quantidade for ultrapassada ou se houver uma descida significativa dos preços — acima dos limites definidos —, o acordo pode ser suspenso”, esclareceu.

Outro ponto relevante prende-se com as exigências de produção.
“Pela primeira vez, o acordo prevê que a União Europeia possa controlar, na origem, as condições de produção dos produtos importados. Hoje já importamos produtos do Mercosul sem qualquer possibilidade de verificação direta. Este mecanismo não resolve tudo, mas representa um avanço face à situação atual”, afirmou.

No final da sessão, Rui Garrido considerou que o principal resultado foi o reforço do conhecimento dos agricultores sobre o tema.
“Houve muitas perguntas e um debate vivo. Muitas opiniões resultavam da falta de informação. Saímos todos mais esclarecidos, mais informados, e isso é essencial para que cada agricultor possa formar a sua opinião de forma consciente”, concluiu.

A discussão em torno do acordo UE-Mercosul e da reforma da PAC deverá continuar nos próximos meses, num contexto em que o setor agrícola reclama maior clareza, proteção eficaz e políticas ajustadas à realidade produtiva do Alentejo e do país.

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