Em declarações em entrevista ao Alentrium.pt, presidente da EDIA descreve impacto das tempestades de inverno e admite novas descargas com episódios de chuva intensa
A barragem de Alqueva poderá voltar a abrir comportas durante o mês de abril, caso se repitam episódios de precipitação intensa semelhantes aos registados no inverno. Em declarações em entrevista ao Alentrium.pt, o presidente do Conselho de Administração da EDIA, José Pedro Salema, explica que a gestão recente do sistema foi marcada por um aumento súbito das afluências após semanas de chuva acumulada.
O responsável sublinha que os efeitos das tempestades não foram imediatos, apesar da intensidade da precipitação registada no país.
“Durante novembro e dezembro houve períodos de chuva intensa e até situações de inundação em várias zonas do país, mas em Alqueva não se verificava ainda uma subida significativa. Existe um tempo de concentração, ou seja, a água demora a percorrer a bacia até chegar ao lago.”
Este comportamento mudou no início de fevereiro, quando o sistema começou a receber volumes elevados de água num curto espaço de tempo.
“Foi no princípio de fevereiro que começámos a registar um aumento muito expressivo das afluências. Numa única manhã, entre as 10h e as 15h, a evolução foi suficiente para obrigar à decisão de abrir as comportas.”
A operação não resultou apenas da pressão hídrica, mas também de limitações externas.
“A instrução inicial foi para turbinar ao máximo através das centrais hidroelétricas, mas tal não foi possível devido ao excesso de energia no sistema elétrico. Perante essa impossibilidade, tivemos de recorrer à abertura de comportas para garantir a segurança da barragem.”
Quanto à origem das afluências, José Pedro Salema esclarece que o contributo das grandes barragens espanholas foi reduzido na fase inicial das tempestades.
“A maior parte da água resultou da bacia mais próxima, tanto do lado português como espanhol, nomeadamente das zonas de Campo Maior, Mérida e Badajoz. Só numa fase mais tardia começou a chegar água das grandes barragens espanholas.”
Atualmente, os níveis de armazenamento refletem esse aumento.
“Alqueva encontra-se próximo da capacidade máxima, cerca de 97%. Já as grandes barragens espanholas, que estavam a cerca de 60% no início das tempestades, situam-se agora em torno dos 85%.”
Apesar da estabilização recente, o presidente da EDIA admite que o risco de novas aberturas de comportas não está afastado.
“Com a albufeira praticamente cheia e os solos ainda com alguma saturação, uma sequência de dias com precipitação intensa pode voltar a criar condições para novas descargas.”
E distingue o impacto de diferentes cenários meteorológicos:
“Precipitação ligeira ou isolada não tem impacto relevante no sistema. Mas vários dias consecutivos com valores elevados de chuva podem rapidamente alterar a situação e exigir nova resposta operacional.”
Entrevista de Augusta Serrano
Jornalista


