Quarta-feira, Setembro 16, 2026

Alga invasora já ocupa fundos marinhos até 12 metros na Costa Alentejana

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Rugulopteryx okamurae está identificada entre Melides e Azenha do Mar, com São Torpes e a Ilha do Pessegueiro entre as áreas mais afetadas. Investigador alerta para forte expansão da espécie nos últimos dois a três anos e para os efeitos sobre a biodiversidade.

Uma alga invasora está a ocupar extensas áreas dos fundos marinhos da Costa Alentejana, numa faixa que se estende entre Melides, no concelho de Grândola, e Azenha do Mar, em Odemira. Em algumas zonas, a Rugulopteryx okamurae já se encontra disseminada até aos 12 metros de profundidade.

O alerta foi feito esta quarta-feira, 2 de setembro, por Joaquim Parrinha, investigador da Universidade de Coimbra e do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), em declarações à agência Lusa.

São Torpes e a Ilha do Pessegueiro, no concelho de Sines, estão entre as zonas onde a presença da espécie é mais intensa, segundo o investigador.

A alga foi detetada há cerca de uma década na área da Marina do Porto de Sines e tem sido acompanhada desde então. A alteração mais significativa, porém, ocorreu nos últimos dois a três anos.

“Com o aumento da temperatura da água notou-se um ‘boom’ exponencial em todas as zonas até aos 12 metros de profundidade”, afirmou Joaquim Parrinha à Lusa, acrescentando que, nas áreas menos profundas, “está tudo ocupado” pela espécie invasora.

Ilha do Pessegueiro entre as áreas mais afetadas

A situação é particularmente evidente junto à Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo, uma das áreas onde Joaquim Parrinha realiza mergulhos com frequência.

Rugulopteryx okamurae forma concentrações densas sobre o fundo, ocupando espaço utilizado pelas comunidades marinhas locais e condicionando o desenvolvimento de espécies autóctones.

“A floresta que esta alga faz, não deixando de ser bonita, não é natural para as espécies autóctones e prejudica bastante o seu desenvolvimento”, explicou o investigador.

De acordo com Joaquim Parrinha, a espécie terá chegado à costa portuguesa a partir do Mediterrâneo, instalando-se inicialmente no Algarve e progredindo posteriormente para norte.

Os registos efetuados pelo investigador permitem já identificar a sua presença ao longo de uma parte considerável da Costa Alentejana, entre Melides e Azenha do Mar, embora com diferentes níveis de concentração.

Biodiversidade marinha sob pressão

A elevada densidade da alga pode reduzir a passagem de luz e a disponibilidade de oxigénio junto aos fundos marinhos, afetando as condições necessárias ao desenvolvimento das espécies existentes.

Entre os grupos apontados pelo investigador como potencialmente afetados encontram-se algas coralinas, sargaços, laminárias e códium.

“Não recebem luz, não recebem oxigénio e morrem”, afirmou Joaquim Parrinha, alertando para a consequente redução da biodiversidade e para a ocupação dos nichos ecológicos pela espécie invasora.

Segundo o investigador, sob as grandes massas de algas podem ainda formar-se bolsas de gases, contribuindo para fenómenos de eutrofização nas zonas subaquáticas onde a biomassa permanece acumulada.

Agitação marítima levou algas para as praias

A dimensão do fenómeno tornou-se particularmente visível nos últimos dias também fora de água.

A agitação marítima arrancou parte das algas existentes nos fundos e transportou grandes quantidades de biomassa para a costa, provocando acumulações em praias do concelho de Sines.

“O mar mexeu um pouco, arrancou algumas das algas e o resultado é uma costa completamente tapada”, descreveu Joaquim Parrinha.

As acumulações nos areais representam, contudo, apenas a parte mais visível de um fenómeno cuja principal dimensão ambiental se encontra debaixo de água, onde a espécie continua instalada nos fundos marinhos.

Portugal tem estratégia nacional para controlar a espécie

Portugal dispõe, desde julho de 2025, de uma Estratégia Nacional para a Gestão da Macroalga Invasora Rugulopteryx okamurae, aprovada pela Portaria n.º 270-A/2025/1, de 23 de julho.

O documento reconhece a rápida disseminação desta macroalga exótica, originária do Pacífico, pelas zonas costeiras e os impactos associados à sua presença na biodiversidade marinha, atividade piscatória, utilização das zonas balneares e economia das comunidades costeiras.

A estratégia prevê, entre outras medidas, a monitorização da expansão da espécie, a remoção mecânica em zonas críticas, a criação de mecanismos de resposta regional e o estudo de formas de valorização da biomassa recolhida. A coordenação cabe a um grupo de trabalho liderado pela Agência Portuguesa do Ambiente.

Remoção e aproveitamento da biomassa entre as soluções

Perante a expansão observada na Costa Alentejana, Joaquim Parrinha defende a remoção da biomassa acumulada nas praias e o estudo de soluções que permitam aproveitá-la.

Uma das possibilidades passa pela utilização agrícola, depois de a alga ser devidamente tratada para retirar o sal.

O investigador admite igualmente intervenções diretamente no meio marinho, através da recolha da espécie invasora, deixando novamente disponíveis as superfícies rochosas necessárias à fixação e desenvolvimento das algas autóctones.

A própria estratégia nacional prevê estudar formas de valorização da biomassa recolhida, procurando encontrar utilizações que contribuam simultaneamente para responder aos custos ambientais e operacionais provocados pela expansão da espécie.

A presença crescente da Rugulopteryx okamurae entre Melides e Azenha do Mar acrescenta agora a Costa Alentejana às áreas onde a gestão desta espécie invasora assume particular relevância, sobretudo perante a dimensão da ocupação já observada nos fundos marinhos.

Fonte: Agencia Lusa

Augusta Serrano — Jornalista

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