José Manuel Santos destaca, em entrevista exclusiva ao Alentrium.pt, o crescimento de 7,7% das dormidas e de cerca de 20% dos proveitos turísticos. Presidente da Turismo do Alentejo e Ribatejo considera que os resultados ganham relevância num ano de abrandamento do setor e anuncia para os próximos meses uma forte aposta na promoção internacional da região.
O Alentejo registou em julho um crescimento de 7,7% nas dormidas, o mais elevado entre as regiões turísticas do país, segundo a leitura dos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) feita por José Manuel Santos, presidente da Turismo do Alentejo e Ribatejo, que, em entrevista exclusiva ao Alentrium.pt, destaca também uma subida de quase 20% nos proveitos turísticos.

Os resultados surgem num ano que o responsável considera particularmente exigente para o setor e em que já se fazem sentir sinais de abrandamento da atividade turística a nível nacional e em alguns dos principais mercados internacionais.
“Eu tenho dito desde o início do ano que temos a noção de que este é um ano complexo, até porque há um abrandamento geral dos números do turismo em Portugal, que já, de certa forma, se fez sentir em 2025. Daí que estes resultados adquiram, na minha opinião, uma maior relevância”, afirma José Manuel Santos.
Para o presidente da Turismo do Alentejo e Ribatejo, crescer 7,7% em julho, alcançando “o crescimento percentual mais elevado entre as várias regiões turísticas do país”, constitui “sem dúvida um resultado que nos anima e que nos dá mais energia para o que falta de 2026 e também para perspetivar os próximos anos”.
Mercado nacional cresce cerca de 11%
Um dos principais contributos para o desempenho do Alentejo veio do mercado interno. Segundo José Manuel Santos, o mercado nacional cresceu cerca de 11%, enquanto o mercado internacional apresentou um ligeiro crescimento de 0,2%.
O responsável considera particularmente positivo o comportamento da procura nacional.
“O crescimento do mercado nacional é, de facto, muito bom, 11% ou 11,1%. E temos um ligeiro acréscimo no mercado internacional de 0,2%. Aliás, no mercado internacional, a maior parte das regiões ou decrescem ou estabilizam”, salienta.
José Manuel Santos reconhece, contudo, que é precisamente nos mercados internacionais que se encontram alguns dos principais desafios do turismo alentejano para os próximos anos.
Alentejo vende mais e a preços superiores
Para além do aumento das dormidas, o presidente da Turismo do Alentejo e Ribatejo destaca sobretudo os indicadores económicos de rentabilidade do destino, que considera particularmente positivos.
“Nos indicadores económicos de rentabilidade e desempenho do destino, os resultados são particularmente bons, com uma subida nos proveitos de quase 20%, comparativamente ao resultado de 2025, neste caso ao mês de julho, mas também no rendimento por quarto disponível, no RevPAR, e na receita por quarto ocupado, no ADR, com aumentos, respetivamente, de 14,6% e de 12% ou 12,5%.”
Para José Manuel Santos, estes indicadores mostram que a região está a conseguir simultaneamente aumentar a procura e preservar o valor da sua oferta.
“Eu acho que a qualidade da oferta turística da região fala mais alto. Repare que nós conseguimos estar a vender mais a um preço mais elevado. A região não só não cede no preço, ou seja, não baixa preços, como sobe. E temos mais vendas. O produto é bom.”
O responsável associa estes resultados ao trabalho desenvolvido pelas empresas, municípios e entidades responsáveis pela promoção turística.
“Isso é trabalho, obviamente, dos nossos empresários, dos nossos municípios, que têm um papel muito importante ao nível dos eventos, e de toda a promoção que as entidades, quer a entidade regional, quer a agência, têm feito.”
Compras de turistas estrangeiros também aumentam
A evolução da atividade turística estará igualmente a refletir-se noutros setores da economia regional.
José Manuel Santos refere que o cruzamento dos indicadores turísticos com os gastos efetuados através de cartões bancários por visitantes estrangeiros aponta para um aumento das compras realizadas no Alentejo.
“Se nós cruzarmos estes dados com os gastos com cartões bancários dos mercados internacionais, percebemos que há também um aumento nas compras dos mercados internacionais, principalmente no mercado espanhol, no mercado norte-americano e no mercado alemão, no comércio, no retalho e na restauração.”
O presidente da Turismo do Alentejo e Ribatejo considera, por isso, que o desempenho de julho deve ser analisado num contexto económico mais amplo.
“Atingimos aqui um quadro, repito, num ano difícil. O turismo não existe fora da economia, temos que ter essa noção.”
Região cresce acima da média nacional em vários indicadores
José Manuel Santos sublinha que o comportamento do Alentejo compara favoravelmente com a evolução nacional em vários indicadores.
“Se olharmos para o mês de julho, há um crescimento do número de hóspedes. O país cresce em julho 1% nos hóspedes e cresce 2% nas dormidas. Nós temos um crescimento superior à média nacional.”
A exceção está na procura proveniente do estrangeiro.
“Nas dormidas do mercado externo, não. No crescimento do mercado externo, o nosso crescimento é inferior à média nacional. Em todos os outros indicadores estamos acima da média.”
Apesar dos resultados positivos, o responsável rejeita uma leitura desligada das dificuldades que atravessam atualmente a atividade turística.
“Há um abrandamento no turismo, como disse, que já se fazia sentir desde o ano passado, com maior reflexo em alguns mercados internacionais, é verdade. Mas eu diria que o Alentejo deu uma resposta muito forte a esses desafios.”
Alemanha entre os mercados que enfrentam maiores dificuldades
Entre os mercados internacionais que merecem particular atenção está a Alemanha, atualmente o terceiro mercado externo para o turismo alentejano.
José Manuel Santos aponta fatores económicos e até climáticos para explicar algumas alterações no comportamento dos turistas alemães.
“Temos que perceber que todo este contexto geopolítico está a ter impacto na economia mundial e europeia. Por exemplo, o mercado alemão, que é o nosso terceiro mercado externo, é um mercado neste momento com muitos desafios, com alguma crise em alguns setores económicos, com muitos despedimentos em muitas empresas e fábricas.”
As temperaturas mais elevadas no centro e norte da Europa são outro fator que começa, segundo o responsável, a influenciar os tradicionais fluxos turísticos.
“Quando estão 27 graus na Alemanha, em julho, a disposição dos alemães para viajar para o sul da Europa é menor.”
A Turismo do Alentejo e Ribatejo está, por isso, a acompanhar estas alterações em articulação com o Turismo de Portugal e com as estruturas que trabalham nos diferentes mercados.
“Estamos a viver tempos de transição também climática e esses tempos de transição climática têm impacto naquilo que é o padrão normal, aquele padrão tradicional a que nos habituámos dos fluxos turísticos do norte para o sul.”
Perante esta mudança, a estratégia passa pela diversificação.
“É a tudo isso que temos que estar atentos, procurando diversificar mercados no sentido de continuarmos também nos mercados internacionais a crescer.”
“O quadrimestre mais intenso de promoção internacional que alguma vez o Alentejo teve”
Na entrevista exclusiva ao Alentrium.pt, José Manuel Santos antecipou ainda uma das próximas apostas da estratégia turística regional.
“Vamos, para a semana, divulgar com maior detalhe aquilo que vai ser o quadrimestre de trabalho na promoção externa do Alentejo.”
A dimensão da operação prevista para os últimos meses de 2026 é destacada pelo responsável.
“Vamos ter, creio eu, o quadrimestre mais intenso de promoção internacional que alguma vez o Alentejo teve.”
O objetivo será reforçar a presença da região nos mercados internacionais e reduzir a exposição às dificuldades sentidas em alguns países emissores.
“Temos expectativa de que esse trabalho que estamos a desenvolver no mercado externo nos proteja e nos ajude a conseguir suster alguns desafios em alguns mercados internacionais e a fazer crescer outros mercados internacionais.”
Investimento turístico nos territórios de baixa densidade
José Manuel Santos considera ainda que os resultados alcançados contribuem para aumentar a confiança dos investidores no Alentejo e destaca o aparecimento de novos projetos turísticos em diferentes concelhos da região.
A propósito dos investimentos recentemente conhecidos no Crato, o presidente da Turismo do Alentejo e Ribatejo considera que estes são também resultado de um trabalho continuado de posicionamento territorial.
“Esses investimentos no Crato são muito importantes.”
Um dos projetos referidos, ligado à Herdade da Rocha, integra, segundo José Manuel Santos, um PROVERE associado à estratégia de desenvolvimento do enoturismo liderada pela entidade regional e aprovada pela CCDR Alentejo.
“O Crato tem feito um trabalho muito interessante de posicionamento. O turismo reconheceu agora, na inauguração do festival, que o Crato é já uma marca nacional, mas também uma marca internacional, graças ao seu festival.”
Para o responsável, a animação económica e a capacidade dos municípios para criarem notoriedade são particularmente relevantes nos territórios do interior.
“É um trabalho de animação económica muito importante que o município tem feito. E essas coisas depois têm, obviamente, os seus resultados.”
José Manuel Santos estabelece uma diferença entre captar investimento para os grandes centros urbanos e conseguir fazê-lo nos concelhos de baixa densidade.
“Para abrir um hotel na Avenida da Boavista, na Avenida da Liberdade, não é preciso muito. Para abrirem hotéis em concelhos de baixa densidade no Alentejo, é preciso trabalhar muito. É preciso anos de posicionamento, de animação económica, de eventos, de articulação de investidores, de muito trabalho dos responsáveis que andam entre os municípios.”
Na sua perspetiva, os resultados globais do destino acabam por contribuir para esse processo.
“As dinâmicas globais do destino animam e dão confiança aos agentes económicos e dão confiança aos próprios autarcas.”
Turismo como instrumento de emprego e fixação de população
Para José Manuel Santos, o crescimento turístico tem ainda uma dimensão estrutural para uma região marcada pelos desafios demográficos.
“Acreditamos que o turismo pode continuar a ser uma atividade económica importante para a região, na fixação de pessoas, na criação de emprego, no aumento do rendimento.”
O responsável reconhece, contudo, que permanece uma diferença salarial significativa entre o turismo e o conjunto da economia.
“É um setor que ainda paga 30% abaixo do que a economia geral paga, mas que está a pagar mais. Esse ‘gap’ está a reduzir-se.”
É nesse quadro, afirma, que a Turismo do Alentejo e Ribatejo pretende continuar a trabalhar com empresas e autarquias.
“É com esse sentimento que, em conjunto com as empresas, com os municípios, trabalhamos diariamente para procurar que a região continue a fortalecer-se do ponto de vista turístico.”
Apesar do otimismo perante os resultados de julho, José Manuel Santos lembra que ainda falta conhecer o comportamento do mês de agosto e mantém prudência perante um contexto económico e internacional que considera exigente.
“Ainda não temos os resultados de agosto. Saberemos os resultados precisamente daqui a um mês. Mas eu diria que estes resultados nos animam e nos confortam e dão-nos ainda mais motivação e energia para continuarmos o nosso trabalho.”
Augusta Serrano — Jornalista


