Estudo que abrange o Norte do Alentejo Litoral estima necessidades próximas da capacidade de recarga do aquífero Tejo-Sado. Reutilização poderá responder a cerca de 30% da procura na área analisada, enquanto a estratégia nacional prevê 72 milhões de euros para novas origens de água em Sines.
A dependência da água subterrânea na margem sul do Tejo coloca desafios que se estendem ao Alentejo. Um estudo promovido pela Águas de Portugal, apresentado esta quinta-feira, 1 de outubro, estima que as necessidades anuais na região analisada rondam os 203 milhões de metros cúbicos, um valor próximo da capacidade média de recarga do aquífero Tejo-Sado/Margem Esquerda.
O trabalho, coordenado por Francisco Nunes Correia e Carmona Rodrigues, inclui o Norte do Alentejo Litoral e analisa a disponibilidade e a procura de água numa área fortemente dependente de captações subterrâneas. A recarga média estimada situa-se entre 192 e 235 milhões de metros cúbicos por ano.
A proximidade entre estes valores não permite concluir, por si só, que exista uma situação generalizada de sobre-exploração. O estudo identifica, porém, vulnerabilidades associadas à seca, à concentração de captações, à evolução dos níveis subterrâneos e à qualidade da água, incluindo o risco de intrusão salina.
Reutilizar água para aliviar a procura
Entre as alternativas analisadas, a reutilização de águas residuais tratadas apresenta um potencial de cerca de 60 milhões de metros cúbicos anuais. Segundo os dados apresentados, este volume, proveniente de efluentes urbanos e industriais, corresponde a aproximadamente 30% das necessidades atuais na área estudada.
A Água para Reutilização (ApR) poderá ser utilizada em atividades que não exigem água destinada ao consumo humano, permitindo reservar recursos de melhor qualidade para o abastecimento das populações e reduzir a pressão sobre as reservas subterrâneas.
O estudo aponta também para a diversificação das origens de abastecimento, a melhoria da eficiência dos sistemas e uma gestão integrada dos recursos disponíveis.
Um recurso partilhado com concelhos alentejanos
A ligação ao Alentejo decorre da extensão do próprio sistema aquífero. De acordo com informação da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), o Tejo-Sado/Margem Esquerda abrange território de Alcácer do Sal, Grândola, Montemor-o-Novo, Mora, Vendas Novas, Avis, Gavião e Ponte de Sor, entre outros concelhos.
Esta abrangência territorial deve ser distinguida da área analisada pelo estudo: a inclusão de um concelho no sistema aquífero não significa que todo o seu território tenha sido abrangido pelo trabalho agora apresentado.
Em Alcácer do Sal, a situação da massa de água subterrânea surge referida na Portaria n.º 351/2026, publicada em agosto, relativa à captação de Montalvo. O diploma indica que a Bacia do Tejo-Sado/Margem Esquerda apresenta “estado global medíocre”, de acordo com o Plano de Gestão da Região Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste.
A classificação constitui um elemento adicional para acompanhar o estado do recurso, sem substituir a análise das condições locais de quantidade, qualidade e utilização da água.
Sines com investimento previsto de 72 milhões
No litoral alentejano, a procura de novas origens de água está também inscrita na estratégia nacional. A Resolução do Conselho de Ministros n.º 133/2026 prevê um investimento de 72 milhões de euros numa solução integrada de abastecimento à Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS).
A solução prevista combina água superficial, água salgada e água para reutilização. O mesmo documento contempla o estudo de alternativas de reutilização e dessalinização para a zona industrial do Sado, identificando a preservação do aquífero Tejo-Sado como objetivo.
Estas medidas enquadram a diversificação do abastecimento industrial, reduzindo a dependência de uma única origem e permitindo recorrer a água tratada em utilizações compatíveis com a sua qualidade.
Tejo e Castelo de Bode entre as alternativas em estudo
Em setembro, o Executivo determinou que a APA e a Águas de Portugal estudassem soluções complementares para o abastecimento da margem sul do Tejo. Entre as possibilidades a avaliar estão a água superficial do Tejo e o sistema de Castelo de Bode.
O estudo apresentado em 1 de outubro acrescenta dados sobre a relação entre a procura e a reposição natural das reservas subterrâneas. Para o Alentejo, a questão envolve tanto os territórios abrangidos pelo aquífero como as alternativas previstas para responder às necessidades urbanas, agrícolas e industriais.
A capacidade de reutilizar água, melhorar a eficiência e diversificar o abastecimento será, assim, parte da resposta a um desafio partilhado pela Península de Setúbal e por território alentejano.
Augusta Serrano- jornalista


