Sessão solene ficou marcada por trocas de críticas sobre imigração, reformas do Estado, democracia e o significado político de Abril, com André Ventura, Hugo Soares e José Luís Carneiro em confronto direto
A sessão solene comemorativa do 25 de Abril ficou marcada por um dos momentos mais intensos do debate parlamentar, protagonizado pelo líder do André Ventura, que defendeu que esta data “não é o dia dos capitães de Abril”, mas sim “o dia dos capitães de janeiro, de fevereiro e de março”.
Segundo Ventura, a celebração da liberdade não pode ser apropriada por um único setor político. “É um dia de todos. Nunca aceitaremos que o valor da liberdade seja reduzido”, afirmou, criticando intervenções parlamentares que elogiaram os movimentos de libertação africanos e recordando os guerrilheiros “que matavam soldados portugueses”.
O presidente do André Ventura sublinhou ainda que Portugal “não começou numa madrugada de Abril”, mas sim “há muitos séculos”, apontando para o cravo verde que levava na lapela.
“Este cravo verde é o símbolo da nossa comunidade emigrante no mundo inteiro”, declarou, sendo aplaudido de pé pela bancada do partido.
No plano político e social, Ventura abordou também a reforma laboral e a reforma do Estado, afirmando que há “duas coisas que nunca poderemos aceitar”: uma reforma que “facilite a corrupção” e outra que “aumente a precariedade dos trabalhadores”.
Referindo-se ainda a situações sociais concretas, mencionou “a mãe a quem dizem que não pode meter os filhos na creche porque os imigrantes têm prioridade” ou “o casal que quer casa, mas lhe dizem que a câmara só construiu para ciganos”, defendendo que existem “esquecidos de Abril”.
“Não querem cravos e mais flores”, disse, mas sim “ter voz em abril, maio, junho, julho e agosto, porque Portugal é de todos os dias”.
Hugo Soares responde: “Abril não é dos cravos verdes nem dos cravos vermelhos”
A resposta veio do líder parlamentar do Hugo Soares, que rejeitou a apropriação simbólica da data.
“Abril não é dos cravos verdes ou dos cravos vermelhos. Abril é de Portugal”, afirmou.
O dirigente social-democrata defendeu que, no atual contexto político, “a coragem está em enfrentar os extremismos, a demagogia e os divisionismos”, considerando essencial preservar o diálogo numa sociedade com “menos paciência para o entendimento e mais tentação para o conflito”.
Referindo-se a temas como salários, pensões, fiscalidade, segurança e imigração, Hugo Soares afirmou que “dizer não ao imobilismo é cumprir Abril”, acrescentando que também é necessário dizer sim ao crescimento económico, à valorização do trabalho e a uma imigração moderada.
Para o deputado, “o democrata pleno combate o radicalismo, mas aceita o veredito do povo”, defendendo a moderação como princípio de agregação política.
No encerramento da sua intervenção, citou artistas como Zeca Afonso e Jorge Palma, terminando com palavras de Ruy de Carvalho:
“A democracia e a liberdade são as coisas mais belas que um homem pode ter. Por isso é que não entendo possível não ser democrata”.
José Luís Carneiro recorda Guerra Colonial e alerta para populismo
Também o secretário-geral do José Luís Carneiro utilizou a sessão para refletir sobre o significado histórico do 25 de Abril, recordando as consequências da ditadura e da Guerra Colonial.
O socialista evocou “as famílias que choraram as partidas” de quem saiu de Portugal e os jovens que recebiam “a guia de marcha para combater numa Guerra Colonial perdida, injusta e sem sentido”.
“A teimosia colonialista levou o país para 13 anos de guerra responsável por milhares de mortos e feridos, e para sequelas que ainda hoje persistem”, afirmou.
José Luís Carneiro destacou ainda o papel de figuras socialistas como Mário Soares, Jaime Gama e António Guterres na integração europeia e na construção da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Defendeu ainda que a Constituição deve ser estudada na disciplina de Cidadania, considerando que “só assim poderemos combater a demagogia e o populismo que minam a democracia portuguesa”.
Sobre os desafios atuais, apontou as “desigualdades que persistem”, o “crescimento débil” e as dificuldades no acesso à saúde como sinais de que “Abril continua atual”.
Referiu ainda o pacote laboral e os ataques dirigidos aos imigrantes, sublinhando a importância destes trabalhadores para a economia portuguesa.
Foto: DN
Por Augusta Serrano | Jornalista


